Regionalização / Discurso / O imperativo ético do Vacinar

Aquando do primeiro confinamento, em pleno deslumbramento pela possibilidade de mudança na ação do ser humano, eu escrevi, mostrando alguma com respeito a essa expectativa. Infelizmente, o tempo encarrega-se , não só de atribuir razão à desconfiança então demonstrada , mas, e sobretudo, mostrar grande fé naquilo que é a natureza humana.

Refiro-me ao processo de vacinação, o qual se iniciou, conforme todos se lembrarão, com bastante suspeição relativamente aos efeitos das vacinas. Vencida a suspeição, aquilo que já era urgente, passou a ser premente, absolutamente essencial e uma grande maioria já não vê a sua vida sem esta inoculação. Por todo o mundo assiste-se ao espetáculo emocionado e emocional das primeiras tomas da vacina, com o seu quê de religioso, naquilo que à atuação do tipo divino diz respeito.

Mas eis que surge a natureza humana em toda a sua plenitude, sob a forma de algo que transcende a figura de fura filas, com que foram apelidados os que não respeitaram os critérios de prioridade para a vacinação. Transcendente, porque embora o princípio seja o mesmo daquele que tem sempre uma desculpa ou seja simplesmente malcriado, que passa à frente de uma fila, a verdade é que aqui o imperativo ético se prende com a melhor maneira de preservar o maior número de vidas.

Ouvidas as justificações, ficamos com aquela sensação de déjà vu, de ter já ouvido este tipo de argumentação em que a responsabilidade do ato é sempre de outros, como se a aceitação da vacinação naquele momento fosse algo inscrito na sua noção de dever. Com certeza, isto lembra-nos o que há de pior na história.

É claro, que há que avaliar também as circunstâncias que proporcionaram estes factos, uma vez que não é crível a assunção, pelas entidades, da crença num padrão ético uniforme para toda a população. E não, não é “bufaria”, a divulgação destes casos, como alguns pretendem fazer passar, porque tal só se aplica relativamente à delação do incumprimento de leis ou regras injustas, o que não parece ser o caso dos critérios utilizados para a prioridade na vacinação.

Noutro sentido, acontece aquela atitude de alguns políticos, tornarem público que não aceitam ser vacinados no momento destinado àqueles que possuem a qualidade inerente ao cargo que lhes permite prioridade. O gesto, embora impactante em termos mediáticos e aceite como um gesto de humildade igualitária, não é correto por três questões.

A primeira é de que se trata de um gesto de integridade, portanto de bondade, ele perde toda esta característica a partir do momento em que é divulgado. A segunda é a de que a dita humildade igualitária está comprometida logo à partida pela possibilidade, mínima, politicamente legitimada de três opções de escolha, o que não acontece com o grosso da população que apenas possui duas, que é entre ser ou não inoculado. Terceira questão, é a de colocar em causa um normativo que possui obrigatoriamente intervenção e aprovação política, mesmo que em sede de aprovação a opinião tenha sido diferente, em Democracia, a conformidade com a vontade legislada deve prevalecer. O exemplo contrário ajuda a criar perversões na sociedade.

Parece que este artigo tem um caráter escatológico, mas na verdade é apenas um comentário e um chamar de atenção, mesmo porque os casos detetados são uma ínfima percentagem relativamente ao número de vacinações, que só não se consideram desprezáveis, porque nenhum caso de falta de ética é desprezável. Mais importante é que o processo como um todo possa correr o melhor possível de forma a que, na medida em que possa ser fornecida, todos recebam a vacina e se inicie a aproximação à normalidade.

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