Alberto Santos - ladrão de memorias

Poderá haver um ladrão de memórias? Descobri que sim, como procurarei demonstrar.

Marguerite Yourcenar disse um dia: Quando se gosta da vida, gosta-se do passado, porque ele é o presente tal como sobreviveu na memória humana.

É certo que não podemos viver permanentemente na sombra do passado, mas, sendo o passado – através da memória – tudo o que sobra do nosso presente, podemos concluir que, afinal, somos seres abençoados.

Abençoados por termos o dom da recordação do tempo que nos proporcionou ter lastro de vida. E quanto maior o lastro, quantas mais recordações e memórias temos gravadas, mais tempo parece que vivemos.

Ou seja, o nosso tempo de vida não se mede tanto pelo número de dias, meses ou anos que o registo civil ou a medicina atestam que o nosso corpo viveu, mas mais pelo tempo medido em registo das memórias da nossa existência. Boas ou más, mas memórias que fazem perceber que o curso da vida foi ou mais, ou menos, longo e duradouro.

Vem isto a propósito da época em que vivemos. A pandemia e o confinamento não restringem apenas a nossa liberdade física. Roubam-nos também o ouro mais valioso da existência: as nossas memórias, o tempo de vida recordante.

Quando olho para o último ano, sou varrido por uma inquietante sensação de desaparecimento de memórias das experiências que rompem o quotidiano. Sobra o ramberrambe de um dia igual ao outro. Ora confinado, ora conveniente distante dos demais, ora mascarado. Pilhado das emoções das viagens, da descoberta, dos amigos, do convívio, do cinema, do espetáculo, da liberdade de estar. De um simples e tão humano abraço. E pior: de ver o sorriso dos outros. Afinal, antes éramos felizes, e não o sabíamos!

Por isso, o último ano passou tão rápido que nem dei por ele. Porque não está impresso no meu registo de vida com memórias, de recordações, de passado vívido. Foram praticamente dias que se seguiram uns aos outros, quando, de repente, descubro que já nos encontramos no mesmo mês do ano em que soubemos que um estranho vírus chegava a Portugal.

Quando não existem memórias, a liberdade é apenas um vislumbre, uma ilusão. Não falo da liberdade física, limitada por confinamentos restrições e distâncias, em nome da saúde física. Mas da liberdade de usufruirmos da condição de seres plenos, inteiros. Seres que se realizam na felicidade de uma viagem, de um abraço, de um beijo, de um sorriso, do salutar convívio familiar e social que nos faz humanos, e nos faz tão bem.

Tudo isto este vírus nos roubou. Esse ladrão de memórias!

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