Para as monjas carmelitas, há décadas que o confinamento é um modo de vida

Dentro dos muros do Mosteiro de Bande, em Carvalhosa, o confinamento já era uma realidade bem antes da pandemia chegar. Dia após dia, 16 monjas carmelitas descalças vivem em clausura e apenas sentiram a pandemia devido a uma grande quebra na venda dos seus produtos e serviços, uma fonte de rendimento essencial à sua sobrevivência.

“A maior parte do nosso tempo é passado no mosteiro, desde o trabalho às liturgias, à confraternização e até mesmo às férias”, brinca a Madre Vera Maria Graça, responsável pelo Carmelo do Coração de Maria.

Desde março, o confinamento foi levado com naturalidade pelas monjas carmelitas descalças, para as quais é essencial a clausura e o silêncio – apenas saem quando estritamente necessário. Não conseguiram, contudo, escapar a um outro efeito colateral da pandemia: o impacto a nível económico, desde logo a quebra de vendas nos produtos e dos serviços que prestam há vários anos.

Monjas vivem apenas do seu trabalho

“Não temos um teletrabalho, quase todo o nosso trabalho é artesanal. Se as pessoas não vêm ao mosteiro e não podemos fazer vendas dos produtos, estamos muito mais limitadas”, partilhou a madre Vera Maria Graça com o IMEDIATO.

Conhecidas pelos produtos alimentares que vendem “sem qualquer tipo de corantes ou conservantes”, como bolachas e compotas, pelo fabrico de hóstias, pela tradução de livros, encadernação e pelo restauro de têxteis, apenas o último lhes “tem valido” desde março do ano passado.

As monjas carmelitas descalças foram recentemente incumbidas com um trabalho de restauração têxtil de peças seculares encontradas na Igreja da Misericórdia, em Santa Maria da Feira. “Este trabalho foi um amparo para nós, porque até as hóstias deixamos de fabricar para a Igreja”, afirmou a madre. Com este projeto praticamente concluído, a comunidade já tem outro de restauro a caminho.

Outro fator positivo no último ano tem sido a grande horta do Mosteiro de Bande, que permitiu assegurar grande parte das necessidades alimentares das 16 monjas residentes, com vários legumes e animais. “Tivemos uma boa colheita, graças a Deus, o que nos tem permitido manter um equilíbrio nutricional”, adiantou a Madre Vera Maria Graça.

Nesta altura, também a comunidade se tem aproximado das monjas carmelitas descalças, que se mudaram para Bande em 2004, para escapar do “ruído” do Porto, onde viviam previamente. “Várias pessoas aproximaram-se do mosteiro e fizeram donativos de alimentos como peixe, alimento que já não consumíamos há muito tempo”, contou.

“Temos recebido muitas chamadas de pessoas esmagadas pelo sofrimento, outras em desespero e o nosso papel é ouvir e ajudar. Pedem orações e ouvem uma palavra de conforto”, explicou a matriarca do Mosteiro de Bande.

Rotina inalterada

Contudo, ainda com todas as medidas de restrição, a pandemia de covid-19 não afetou a rotina monástica das 16 irmãs que habitam o Mosteiro de Bande. O dia começa bem cedo, pelas 6 horas da manhã, e incluiu vários momentos de oração e de trabalho, cronometrados quase ao minuto e frequentemente marcados pelo toque do sino.

Aplicam diariamente conhecimentos transmitidos ao longo de gerações e em temporadas passadas em mosteiros de outras partes do mundo, como em abadias francesas que já com conhecimentos da idade média a nível da oficina artesanal.

Durante o dia, apenas existem duas refeições definidas: o almoço e a ceia, sendo que as monjas não comem nada entre os dois. O único momento de confraternização é após o almoço. Juntas, as irmãs interagem, colocam-se a par com a atualidade nacional e mundial e partilham intenções de oração e qualquer carta que recebam.

Para a madre Vera Maria, o “chamamento” para a vida monástica é facilmente comparado a um “enamoramento” entre um casal. “Há uma atração entre Jesus Cristo e cada uma de nós e posso dizer que, inevitavelmente, o caminho era por aqui”, rematou.

 

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