Invasão do capitólio ou sintoma de doença na Democracia

Com o, tão ansiado, final do Ano de 2020, iniciou-se o ano de 2021 cheio de esperança assente na erradicação da pandemia, na mitigação dos seus efeitos e consequente recuperação quer em termos económicos, quer em termos sociais.

Eis senão que logo na primeira semana, a esperança dá lugar à perplexidade e ao desencanto. A terceira vaga para uns, segunda vaga para outros, está aí e em força, mas pior que isso, o mundo assiste a um ato apelidado por muitos como tentativa de golpe de estado e por outros, sobretudo pelas autoridades, como um ato de sedição, insurreição e terrorismo, naquela que é a nação, que no geral, a maioria se habituou a ver como o farol da democracia.

O choque foi enorme até para quem, por cá, sempre se mostrou simpatizante de Trump. Perceber até que grau a febre criada pelas doenças no seio da democracia podem levar, transcendeu, de algum modo, mesmo as expectativas daqueles que sempre caracterizaram o atual presidente americano, de algo como candidato a tirano.

Porém, isto não tem nada de novo, pois já Montesquieu tinha observado que o isolamento do tirano em relação aos súditos, e dos súditos entre si através do medo e da suspeita generalizada constitui a principal característica da tirania. A tirania contradiz a condição essencial da pluralidade.

Portanto, não é democrática, apenas resulta da combinação entre força e impotência. Força do tirano, impotência dos súditos, privados da capacidade humana de agir e falar em conjunto. Esta capacidade humana é fundamental para o desenvolvimento do poder, desenvolvimento impossível na tirania, uma vez que a violência pode tirar o poder, mas jamais pode substituí-lo.

Desta forma, a tirania acaba por não conseguir engendrar poder suficiente para se manter. O poder, ao contrário da força, é divisível sem que se reduza. A interação, com os seus controlos e equilíbrios, pode ainda gerar mais poder, pelo menos enquanto a interação seja dinâmica e não resultado de um impasse.

Isto é o que poderíamos considerar como sistema imunológico da democracia, destinado a defendê-la, o que no caso exposto, potencialmente, trará a saúde desejada. Cabe-nos, contudo, a nós, para mais, numa altura de eleições, pugnar para que não ocorram este tipo de febres, indicadoras de doenças que possam originar sequelas do tipo daquelas que se foram esquecendo apesar da necessidade da sua permanente recordação.

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