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O enraizamento implica, como nos explica Weil, uma participação gerada pelo lugar, nascimento, profissão e meio. Trata-se da inevitabilidade da ancoragem em múltiplas raízes pelas quais recebe a totalidade da sua vida moral, intelectual e espiritual. Tal como esta envolvente natural, é, também indispensável as trocas de influências entre meios muito diferentes.

O desenraizamento aparece nas próprias relações sociais que se constituem dentro do mesmo país, as quais contribuem para a agravar o de quem vem de fora. Uma tem a ver com as questões relacionadas com o dinheiro, a outra com a educação , com a modelação das comunidades.

A condição social perpetuamente suspensa no dinheiro, impele à manutenção fixa no cálculo do dinheiro. Os trabalhadores, neste sentido, são imigrantes, já que, geograficamente, se possam manter no mesmo lugar, acabam por ser moralmente desenraizados, exilados e readmitidos. É o que se passa com a liberalização das condições de trabalho na qual parece emergir uma ideologia que consagra o estilo urgente de vida , o do agora, em detrimento da estabilidade a longo prazo. Algo, que Slavoj Zizek identifica, como a indução da sensação de liberdade perante os constrangimentos de uma carreira permanente. No fundo, é o que se encontra inscrito na figura do sujeito como indivíduo “psicológico”, que vai acumulando habilidades individuais e que tende a «interpretar todas estas mudanças como resultado da sua personalidade, e não como resultado de ter sido sacudido pelas forças do mercado.» Fundamentada neste sujeito, a liberdade de escolha aparece dotada de propensões que o individuo se esforça por concretizar. Não pode , contudo, ser esquecido o desenraizamento que Weil denomina em segunda potência : o desemprego. Este, que é marcado pela impossibilidade de estar em casa, num qualquer emprego, nos partidos, nos sindicatos supostamente criados para obviar este tipo de situações, em locais de prazer e tão pouco na cultura intelectual no caso de a tentarem assimilar.

Outro fator de desenraizamento é instrução, tal como ela é concebida na atualidade. É uma instrução, muito baseada na cultura moderna, conforme referido pela autora, em que o desejo do aprender por aprender se tornou muito raro, o prestígio da cultura se tornou quase exclusivamente social e em que os exames exercem sobre os estudantes a mesma obsessão que o dinheiro sobre os trabalhadores. A tudo isto acrescenta-se, cada vez mais, por via do crescente acesso à informação (negação de formação) a uma vulgarização científica de qualidade inferior. Assim se modelam comunidades que se tornam, por um  lado, estranhas a quem nelas não foi modelado, e por outro com uma certa disrupção com a realidade história e social da região em causa.

Percebe-se, assim, que um dos dois direitos humanos mais fundamentais, a liberdade de escolha, se torna em si mesmo um pseudodireito destinado a dar aos indivíduos uma falsa sensação liberdade. Estamos perante uma envolvente, em que o desenraizamento se expressa. Os que por ele são atingidos, acabam por ter um de dois comportamentos : « ou caem numa inércia da alma quase equivalente à morte, (…) ou jogam-se numa atividade que tende sempre a desenraizar, frequentemente pelos métodos mais violentos, aqueles que ainda não o estão ou não o estão senão em parte.» o desenraizado desenraíza e o enraizado não desenraíza.

* Extrato adaptado do capítulo com mesmo título contido em “Direitos Humanos ?” de Eduardo Silva

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