Saudade

A minha intenção era não escrever, era ficar calada neste espaço, era não agitar mais um crime horroroso que, hoje, quase todos comentam! Escrevo a pensar num crime hediondo que ocorreu no Aeroporto de Lisboa, que esteve silenciado durante longos meses e que, no presente, é objeto de análise e de discussão.

Refiro-me aos agentes do SEF que espancaram o ucraniano Ihor até à morte, no Centro de Instalação temporária do aeroporto de Lisboa, Depois da enorme tortura, da gigantesca agressão, o cidadão ucraniano não foi assistido e acabou por morrer. Horroroso o caso porque se o grito “black lives matter” também ressoa em terras lusas, a vida de Ihor Homenyuk não conta menos do que a de George Floyd, por exemplo. Todos temos os mesmos direitos!

Depois disso, um silêncio aterrador. Poucas palavras se seguiram, nenhuns comentários, alguns longos silêncios que nunca deveriam ter acontecido…

Os agentes do SEF que espancaram o imigrante calaram-se; a diretora do SEF demitiu-se; a provedora da Justiça, Lúcia Amaral, apelidou os centros de instalação temporária dos aeroportos de “sítios sem lei”. A par disto, a melhor prova de que o problema é estrutural, é a ideia peregrina do ministro Eduardo Cabrita querer instalar “botões de pânico” nas instalações próprias do aeroporto…

Vejamos as coisas, então.

O que aconteceu no aeroporto de Lisboa desrespeita o direito internacional e a Convenção Europeia dos Direitos Humanos e isso é uma falha monumental do nosso Estado de Direito! A ser assim, há, claramente, um responsável político que se chama, Eduardo Cabrita e que é quem tutela o SEF. Se isto não chega, há a notícia de que a ex-diretora do SEF vai ser nomeada para um novo alto cargo, muitíssimo bem remunerado… Fico sem saber se é promovida por serviços à Pátria ou pela morte de um suposto inocente…

Quanto ao Ministro, já sabemos, não se demite!

Continuando a subir numa escala de horror, chega-se a António Costa, primeiro-ministro do país. Já despediu um ministro em 2016 mas não demite outro que tutela o sinistro Centro do Aeroporto que tortura e mata… Nunca contactou a viúva: Nem condolências, nem um pedido de desculpas. Isso é grave, dececiona-me!

Muito grave também, é o facto de o próprio Presidente da República, neste caso, não ter feito nada. Nada, mesmo! É ele quem está no topo da escala, é ele que tudo comenta, que tudo promete, que se congratula por tudo e por nada, que ousa telefonar em direto a Cristina Ferreira para lhe desejar sorte no novo programa e que se manteve calado nesta situação que envergonha o país… Aonde param os tais afetos que ostenta e distribui?

Bem sei que Oksana Homenyuk, a viúva, não tem milhões nem é sinónimo de audiências de milhões de potenciais eleitores mas o Presidente Marcelo bem podia ter feito qualquer coisa, mesmo fingindo algum afeto…

O que aconteceu no aeroporto de Lisboa não foi, afinal, um incidente isolado e a tortura e impunidade não podem ficar sem responsáveis. O que aconteceu foi um crime ignóbil e sinistro e os responsáveis políticos nesta história nunca poderão ficar sem castigo!

Leia mais artigos na página de opinião do IMEDIATO.

Subscreva a newsletter do Imediato

Assine nossa newsletter por e-mail e obtenha de forma regular a informação atualizada.


Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *