Alberto Santos

Passaram 19 anos. Muito tempo desde o dia em que acordei sem saber que destino me cabia e adormeci mergulhado numa espiral de emoções.

Tinha pouco mais de 30 anos sulcados nas ruas da minha aldeia de Paço de Sousa, com as primeiras memórias a brincar com a infância descalça e a bola nas ruas estreitas de Cadeade, ainda sem luz, presas no encantamento das sementeiras, no crescimento e colheita dos frutos da terra, nas vindimas e desfolhadas, nos banhos da praia dos tesos, nos primeiros amigos, na primária de São Lourenço e no Seminário dos Carmelitas Descalços. E, de repente, o curso na Católica, novos amigos, a entusiasmante advocacia e um desafio tão súbito como surpreendente: abandonar a profissão e candidatar-me à presidência da Câmara Municipal de Penafiel!

Ora, escrevo este texto à mesma hora em que, há 19 anos, neste mesmo dia, se conheciam, aos poucos, os resultados das eleições autárquicas. É difícil recordar e rememorar todas as emoções que se misturaram num momento como aquele.

Mas a vida cheia é a que se faz por ciclos, a de sabermos interpretar o papel a que somos chamados, quer no nosso crescimento interior enquanto seres humanos, quer a nossa relação com a comunidade. E também ter consciência de que todos os ciclos têm, inexoravelmente, um fim. E que, afinal, é o fim que conta. Aquele em que podemos olharmo-nos ao espelho e dizermo-nos, olhos nos olhos, que valeu a pena, e que estamos prontos para reiniciar outro ciclo.

Mas também aquele que, sem receios ou remorsos, poderemos olhar os olhos dos outros, daqueles a quem servimos, e descobrirmos o reconforto de saber que saímos em paz, com a sensação da missão cumprida. Mesmo que não tivéssemos feito tudo certo, mesmo que não tivéssemos tomado sempre as melhores decisões. Mas pacificados por sabermos que, no tempo que a comunidade nos outorgou o poder de tomar as decisões para melhorar a sua qualidade de vida, sempre nos norteamos pela noção e convicção que nos entregávamos de corpo e alma a essa missão.

Mas há outras coisas importantes que aprendi na missão pública: sozinhos, valemos pouco. Somos, sim, mais fortes quando encontramos equipas leais, coesas, fortes e competentes. Colaboradores que, sem olhar às cores partidárias de quem governa, cumprem com zelo e dedicação a sua missão. E um povo que se mobiliza para as causas da comunidade. As grandes e as pequenas. Mas as causas que são de todos, independente de terem votado no partido A ou B. E aprendi que há amigos que, em qualquer caso, ficam para a vida. E outros nem por isso, mas que, ainda assim, a vida continua. E que a união, mesmo na diversidade de opiniões, é uma muralha difícil de derrubar.

Mas, como disse, que o dia mais importante da missão pública, não é o dia em que nela se entra – onde não faltam palmas e muitos amigos -, mas sim o dia em que se sai. Esse é que é dia de todas as verdades!

Por isso, hoje, dia 16 de dezembro de 2020, 19 anos depois desse momento primordial da minha vida e do projeto que se iniciou em Penafiel (Penafiel Quer) e já com 7 anos de distanciamento depois de terminar esse ciclo pessoal, e do relançamento do projeto com o meu bom amigo Antonino de Sousa, agradeço e presto homenagem a todos os que ajudaram nessa pioneira caminhada, aos muitos que contribuíram para consolidá-la e a fazê-la crescer, aos adversários que a tornaram mais exigente e honrada, aos que exerceram o direito de crítica leal e intelectualmente honesta, aos que não concordaram e divergiram das minha opiniões. E aos amigos que ficaram para sempre.

Com todos eles aprendi que a vida é tão complexa como fácil. Depende do modo como a conduzimos, em cada momento. Mas, sobretudo, como encerramos cada ciclo da nossa vida.

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