Autor de: Dinheiro / Eleições / Faces Privilegiado / Este também é o sentido da vida

Há cerca de 23 anos perdi o meu pai e perdi, de certa forma, a ligação à minha família paterna. Sempre tive contacto com alguma da família, mas para um miúdo de 15 anos, a ligação enfraqueceu, tendo em conta que poucas vezes estive com eles depois disso, por razões várias e durante vários anos.

Passados uns 10 anos (ou pouco mais) retomou-se essa ligação. Não me lembro muito bem porquê. Lembro-me sim do sentimento de não pertença quando nos juntamos nesse dia, provavelmente num dia de Natal ou aniversário da minha avó (eu e o meu avô paterno temos a triste coincidência de ele ter morrido no ano em que eu nasci. Uma metáfora para a renovação da vida). Esse sentimento de estar deslocado, deve ter sido da minha cabeça.

Com o tempo, fui sentindo o amor dos meus tios (14 tios diretos!), dos meus primos e dessa parte da minha família, pelos gestos, pelo olhar e pelo afeto deles. Até quando lhes ganhava a jogar cartas e eles ficavam zangados. Eu sou quem tomou o lugar do irmão que eles perderam ainda novo (novamente a renovação da vida). Eles são os irmãos que eu nunca tive.

Depois dessa reaproximação passei a visitar regularmente a minha avó. Nunca as vezes que o devia ter feito, no entanto as suficientes para me reaproximar dela e fazer com que isso tivesse um contributo decisivo na pessoa que sou hoje. É possível ficar embaraçado por se sentir o amor de alguém. A minha avó fazia-me sentir isso.

Quando entrava em casa dela e ela percebia que era eu, sorria de uma forma que todos nós devíamos sorrir para todos aqueles que amamos. Aquele sorriso desarmava-me, embaraçava-me, desconstruía-me. Ia junto dela e apetecia-me voltar a ter 5 anos de idade para poder deitar-me no colo dela e ficar assim horas seguidas, protegido de tudo e incapaz de ser perturbado. Vejo aquele sorriso. Era como o sorriso de uma mãe para um filho.

Nessas visitas, várias vezes ouvia as suas histórias de vida. As histórias de alguém que teve 16 filhos e que perdeu o marido quando ainda não tinha 50 anos vividos. Eu puxava por ela. Queria saber pormenores de como se vivia uma vida daquelas, muitas vezes curioso pela frugalidade da sua vida, comparada com os cânones atuais de vida. Uma vida impensável nos dias de hoje. E essas histórias foram uma lição.

Certamente que houve outras razões, mas não tenho dúvida que sem conhecer a história de vida da minha avó Maria, seria mais um homem incapaz de perceber a futilidade da maior parte das coisas a que damos importância. Os nossos avós, quando são o que devem ser, trazem um conhecimento e uma incomensurável visão sobre a vida. Trazem uma perspetiva única. Eu consegui perceber isso. E ainda bem.

Já é um lugar comum dizer que vivemos tempos difíceis e únicos. Os lugares comuns levam-nos a relativizar o valor das coisas. Quase que a normalizar. Tenho escrito várias vezes sobre o que se passa em vários lares do nosso país e a quantidade de pessoas de idade que está a morrer. Não podemos considerar isso normal nem devemos menosprezar a vida dessas pessoas que é o que me parece que acontece. Ou posso estar enganado e pouco atento. Não sei. É o que sinto quando acompanho as notícias ou quando me dão uma notícia da morte de alguém.

Este foi um texto demasiado fácil de escrever. É o que acontece quando a emoção e o coração tomam conta da nossa vontade. Este é um texto de homenagem a todas as pessoas que estamos a perder. A todos os avós. É um texto de homenagem à minha família. Mas acima de tudo é um texto de homenagem à minha avó Maria que, apesar de ter partido, deixou em mim um legado de humildade e frugalidade que obrigarei a mim mesmo que perdure no meu ser.

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