Saudade/Contra o medo… esperança!

A Porto Editora organizou o processo para vir a concluir que a palavra do ano 2020 foi, sem surpresa, saudade.

Insistem quase todos que este signo linguístico não tem tradução nos outros países, nas outras línguas e, parece-me que o sentimento que o mesmo traduz poderá ser, mesmo sem outra tradução exacta, aquilo que a maioria de nós sente ou poderá vir a sentir relativamente a pessoas ou a coisas, ou a factos ou até a sentimentos antes experimentados…

Se digo assim é porque, distanciando-me muito no tempo, já na Idade Média, D. Dinis escrevia cantigas de amor onde dizia, por exemplo:

“Que soidade de mha senhor ei”

para então traduzir esse mesmo sentimento provocado pela ausência, pelo afastamento, pelo silêncio do outro, aqui a amada e que é, afinal,um sentimento de melancolia e de encantamento que resulta do prestígio sugestivo do vocábulo “soidade” prolongado em todas as estrofes e confirmada pela lentidão do Ritmo a traduzir a dolência desse mesmo sentimento vivido pelo rei trovador.

Assim foi desde muito cedo na nossa História, na nossa Literatura e é hoje, sem qualquer dúvida, o que sentem milhões e milhões de pessoas face ao período tão difícil que todos vivemos.

Assim foi e assim está a ser, no ano que findou e no ano que agora começa… Tudo muito difícil e por  mais que desejemos o contrário, o 2020 permanecerá gravado na nossa memória, individual e colectiva.

Do ano que agora terminou, iremos guardar muitas lições que nos mudaram a vida e abalou as nossas certezas. Do ano horrível que nos deixou, vamos guardar a imagem das máscaras que começaram por ser omnipresentes nos países asiáticos e que já se tornaram uma norma em quase todo o mundo. E já tenho muitas saudades dos rostos inteiros, dos sorrisos que completavam as mensagens que se queriam transmitir…

Tenho saudade do tempo antes do tempo que tornou mais visível tudo aquilo que nós víamos…

Tenho saudade de estar livremente com todos os que amo, de ter comigo os meus netos, inteiros, sem máscara, sem círculos ou quadrados que nos travam o contacto… Tenho ainda mais saudades dos que já não estão fisicamente comigo e que me deixaram mais só e obrigatoriamente mais triste…

No ano que terminou, a pandemia foi, definitivamente, o acontecimento mais marcante, que nos obrigou, a todos, a viver de modo diferente. Instalou-se uma crise sanitária, social, económica e política e esses doze meses que passaram, acredito, não deixaram saudades a ninguém… O mundo quase se desmoronou e a covid-19 irá criar um mundo que será menos aberto e menos livre…

Eu queria acreditar que neste ano novo que começa, nós sairemos desta crise mais fortes do que quando nela entrámos e que este confinamento a que todos estamos sujeitos não nos impeça de sonhar! A nossa vida transformou-se, tenho a certeza, mas, dos últimos meses, havemos de escolher um dia, uma marca, um sinal que nos fará sentir alguma saudade… Porque, cada ano vivido contará sempre uma história!…

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