O tráfego aéreo é gigantesco. Parece que não há crise. Jovens. Mais jovens. Mais jovens. Abençoados. As noites no Porto parecem a noite de S. João. Quem caminha pela Invicta vê esplanadas cheias, telemóveis topo de gama e roupas de marca a desfilar.
Esta festa permanente não é uma miragem de riqueza, mas o reflexo de uma mudança profunda: os jovens de hoje têm outras prioridades. A prioridade já não é a estabilidade patrimonial, mas a vivência do agora.
Muito mudou. E mudou muito.
A Fissura nos Afetos e no Imobiliário
O crédito à habitação a 30 ou 40 anos foi desenhado para um mundo que exigia acreditar que o casamento era para a vida. Mas a crise atual não é religiosa ou de valores; é, em grande medida, uma crise de confiança no parceiro. Numa Europa Latina onde as taxas de divórcio aumentaram, os jovens olham à sua volta com realismo e evitam o risco. Assinar um contrato financeiro de quatro décadas numa era de relações mais fluidas pode ser visto como uma imprudência capaz de ditar a ruína individual em caso de separação.
Sem a segurança de que “o outro” estará lá amanhã, racham-se alguns dos alicerces sociais e psicológicos que sustentaram durante décadas a banca e o mercado imobiliário tradicional.
Há trinta ou quarenta anos, muitos casais faziam escolhas diferentes. Compravam um terreno, construíam uma casa, tinham filhos e adiavam férias, automóveis ou outros consumos. Hoje diz-se que construíram património. Não tenho a certeza. Talvez tenham construído sobretudo matrimónio.
A casa era a consequência. O sacrifício fazia sentido porque existia uma expectativa de lealdade e permanência. A habitação era uma construção de pedra ou cimento, mas era muito mais do que isso: era fruto da confiança.
A Engrenagem do Consumo Imediato
Enquanto os jovens escolhem a autoproteção e canalizam o rendimento para o consumo imediato de experiências, viagens e tecnologia, o setor imobiliário afasta-se deles. Em polos industriais como Paços de Ferreira, o betão concentra-se num boom de empreendimentos de luxo voltados para a especulação, ignorando os vencimentos da grande maioria dos jovens trabalhadores.
O sistema adaptou-se. Os bancos e o poder político alimentam o imobiliário de luxo para o grande capital, enquanto as multinacionais capturam alegremente o dinheiro de uma geração que desistiu do sonho da casa própria em nome de uma liberdade individualista e programada.
A conclusão é tão irónica quanto inevitável: ao tentarem proteger-se da volatilidade dos afetos e da armadilha dos bancos, os jovens entregam-se a outra engrenagem. A desconfiança no outro criou o cliente perfeito para o consumo instantâneo. Na falta de um lar estável para construir, consome-se a vida em parcelas descartáveis.
A folia contínua nas ruas e o tráfego nos céus talvez não celebrem a emancipação de uma geração, mas a sua rendição a um sistema que aprendeu a lucrar, até ao último cêntimo, com a crescente incapacidade de confiar.
A Distância das Gerações e a Crise Demográfica
Mas talvez exista uma consequência ainda mais profunda desta transformação.
Temos menos filhos, mais idosos e famílias cada vez mais pequenas. Durante séculos, o envelhecimento foi resolvido dentro da própria família. Os pais envelheciam perto dos filhos. Os avós envelheciam perto dos netos. A casa familiar era também uma rede de apoio.
Hoje, os filhos não querem regressar à casa dos pais. E os pais não cabem na casa dos filhos.
Os primeiros procuram autonomia. Os segundos procuram assistência. Entre uma coisa e outra abriu-se uma distância que não é apenas física; é também cultural.
Talvez por isso, o outro lado da crise da habitação para os jovens seja também a falta de condições e de habitação para os idosos. Quem cuidará deles? Onde viverão quando deixarem de conseguir viver sozinhos?
Os lares foram pensados para responder a situações excecionais. O problema é que a exceção ameaça, também em concelhos como Paços de Ferreira, transformar-se na regra.
A mesma sociedade que produz cada vez mais pessoas a viver sozinhas produzirá também cada vez mais idosos a envelhecer sozinhos. E então poderemos descobrir um paradoxo inquietante: herdeiros com duas casas e pais sem lugar.
Talvez a verdadeira crise não seja imobiliária.
Talvez a nossa verdadeira crise seja demográfica.
E talvez tudo comece na mesma fissura invisível e assustadora: a perda de confiança no outro e da crença no futuro.
Vamos ver!
Ricardo Pereira


