A obesidade é uma doença crónica, reconhecida pela Organização Mundial da Saúde desde 1997, e está associada a mais de duzentas outras condições de saúde, da diabetes às doenças cardiovasculares. O facto de continuar a ser considerada apenas uma questão de estética ou de gestão do peso é, reconhece Jonathan Santos, especialista em Medicina Geral e Familiar, o maior obstáculo que encontra no acompanhamento destes doentes. E é também um dos fatores para que a procura de ajuda especializada seja adiada, por vezes, durante anos. Saiba porque é importante atuar cedo e qual a importância de uma resposta multidisciplinar integrada.
A obesidade tornou-se um dos maiores desafios atuais de saúde pública. Qual é a sua prevalência em Portugal e como está a evoluir?
Segundo os dados mais recentes do INE (Instituto Nacional de Estatística), referentes a 2022, quase 16% dos adultos portugueses têm obesidade e mais de 37% têm excesso de peso. Juntando os dois grupos, mais de metade da população adulta em Portugal está acima do peso considerado saudável. Na região do Tâmega e Sousa estes números parecem estar acima da média. E a tendência é de subida. Nas últimas décadas, o número de pessoas com obesidade tem vindo a aumentar de forma consistente, acompanhando o contexto europeu. As projeções internacionais apontam para que esta percentagem continue a crescer nos próximos anos.
Quais são os principais fatores de risco para o desenvolvimento desta doença e de que forma é possível atuar ao nível da prevenção?
Os fatores de risco são vários e combinam-se entre si. Há uma componente genética importante, mas também pesam os hábitos alimentares, o sedentarismo, o sono insuficiente e o stress do dia a dia. Vivemos rodeados de alimentos muito calóricos e de fácil acesso, e isso torna mais difícil manter o equilíbrio. Quem tem a doença vive num esforço mental constante que acaba por se “esgotar” porque o organismo tende a responder à restrição alimentar aumentando os sinais de fome. Isso resulta no chamado efeito yo-yo, com uma recuperação do peso depois de cada dieta restritiva.
Quanto à prevenção, atua-se em várias frentes: alimentação equilibrada, atividade física regular, sono de qualidade e, sobretudo, procurar ajuda cedo, antes de a doença se instalar e trazer outras complicações associadas.
A obesidade ainda é, muitas vezes, considerada apenas uma questão de gestão de peso e não uma doença. Esse é um fator que contribui para que as pessoas demorem a procurar ajuda especializada?
Sim, e esse é talvez o maior obstáculo que vejo na prática clínica. É importante perceber que a obesidade não é uma questão estética. Muitas pessoas continuam a olhar para a obesidade como uma questão de disciplina ou de força de vontade, e não como aquilo que realmente é: uma doença crónica, com mecanismos biológicos próprios. Essa forma de pensar tem um custo real. Quem acredita que basta “esforçar-se mais” tende a adiar a procura de ajuda especializada, muitas vezes durante anos, e a viver com culpa por não conseguir sozinho aquilo que a própria biologia dificulta.
A boa notícia é que esta forma de olhar para a obesidade está a mudar, tal como já mudou para outras doenças que também foram, no passado, associadas a julgamentos morais. Quanto mais cedo a pessoa procurar ajuda, mais fácil é evitar complicações e melhorar a qualidade de vida.
Quando um doente com obesidade procura tratamento, que respostas existem e como é feito o seu acompanhamento a nível hospitalar?
O tratamento é sempre personalizado. Cada doente tem características únicas, com ou sem outras doenças associadas, e por isso avaliamos a história clínica, os antecedentes familiares, a massa gorda e também a força muscular. É com base nisto que se propõe um plano dirigido a cada pessoa. Na rede CUF, nomeadamente nas Clínicas CUF Paredes e CUF Marco de Canaveses, já existe uma resposta integrada para estes doentes e estamos a estendê-la para as outras clínicas CUF no Tâmega e Sousa.
Ao nível da Medicina Geral e Familiar, temos profissionais dedicados a este tema, com uma abordagem holística do doente. Contamos também com especialistas de Endocrinologia e Cirurgia Geral, com larga experiência em obesidade, mais concretamente na cirurgia bariátrica, já realizada nas nossas unidades. A estas juntam-se áreas fundamentais como Nutrição, Psicologia, Pneumologia, Medicina Física e de Reabilitação, Ortopedia, Ginecologia-Obstetrícia, Cardiologia e Nefrologia, já que estes doentes têm frequentemente doenças osteoarticulares, ginecológicas, cardíacas e renais associadas.
Existindo o envolvimento de tantas especialidades, qual a importância de uma abordagem multidisciplinar integrada e que diferença pode fazer nos resultados a longo prazo?
Essa abordagem é determinante, e talvez a palavra mais importante seja mesmo integração. O tratamento da obesidade raramente se resolve numa só especialidade, porque a doença tem impacto em todo o corpo da pessoa, mas também na globalidade da sua vida. A Medicina Geral e Familiar tem aqui um papel central, muitas vezes como primeiro ponto de contacto e como fio condutor de todo o processo. É quem acompanha o doente ao longo do tempo, articula com os diferentes especialistas e mantém uma visão global da sua saúde, para além do peso.
A vantagem de uma equipa verdadeiramente integrada, como acontece na rede CUF, é estarmos todos interligados e em contacto. Essa comunicação entre especialidades gera naturalmente mais resultados em saúde e também mais confiança e conforto para os doentes.
Jonathan Santos, Especialista em Medicina Geral e Familiar nas Clínicas CUF Paredes e CUF Marco de Canaveses (OM 54176)
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