Autor de: Nada / Dinheiro / Eleições / Faces Privilegiado / Este também é o sentido da vida

Nota-se que estamos em eleições. Não há cidade que visitemos que não tenha obras em andamento. Daquelas que empecilham os nossos movimentos. Para as notarmos. Já repararam que a manutenção ou reparação de estradas municipais acontece sempre em períodos de eleições (principalmente autárquicas)? Quantos de nós se lembram do edifício que foi construído ou recuperado, a não ser quando meses depois de lá passar, ficarmos surpreendidos pela sua existência ou pela sua fachada lavada? Mas com as estradas não é assim. Quando uma estrada está em obras nós sabemos porque a nossa rotina é alterada. O cérebro, ligado em piloto automático pela rotina dos dias, tem que se esforçar para encontrar um novo caminho. Vamos chegar atrasados ao trabalho ou deixar os miúdos na escola atrasados e vamos desculpar-nos com as obras na estrada. O político bom sabe disto.

Por vezes, vamos até ligar a obra na estrada a um acontecimento fortuito como reencontrar alguém que não víamos há muito ou a um jardim novo que nos captou a atenção no nosso novo caminho temporário. Quando o político da sua terra for visitá-lo (ele normalmente vai de 4 em 4 anos), vai-se lembrar das obras que ele “mandou” fazer. Se o leitor estiver bem disposto até vai comentar com ele: “Claro que me lembro do seu trabalho. Por causa disso, até reencontrei o Aurélio que não via há tantos anos!”. O político é bom e fez-lhe um favor! Vote nele que ele recuperou uma estrada e fê-lo recuperar o contacto com o Aurélio para voltarem a ir jogar futebol aos sábados de manhã e, quem sabe, torcer o joelho, ser operado e na recuperação na clínica, comentar que tudo começou numa estrada que estava em obras. O fisioterapeuta também vai ficar a saber que aquele político é bom, porque faz obras.

No próximo lançamento de uma primeira pedra de uma obra, até pode ir com o Aurélio (com quem retomou o contacto) para atestarem o empreendedorismo do político. Passados 4 anos do lançamento da pedra, podem ir juntos à inauguração. Se o dinheiro for menos do que o esperado (normalmente é) podem ir fazer uma visita à obra passados 4 anos do lançamento da primeira pedra para ver como está e passados outros 4 anos podem ir à inauguração. O político recuperou uma estrada, recuperou o Aurélio para a vida do leitor e propicia momentos de prazer e convívio entre si e o Aurélio. O político é bom e prazenteiro. O leitor tem ideia que houve um lançamento de uma pedra uns anos antes. Tem ideia que a obra demorou algum tempo. Mas isso não é importante porque a memória em política não dura mais que 6 meses (roubei esta frase a um político. Um político bom.) e o importante é o que acontece agora.

Depois de saírem da inauguração da obra, cujo lançamento da primeira pedra tinha sido há 8 anos, teve um acidente pequeno numa estrada em obras. A mesma estrada que estava em obras há 8 anos. Vieram mais uns milhões de euros de uns fundos europeus e agora estão a colocar as passadeiras na cor azul porque o vermelho desbotava muito. Esta é a mesma estrada que o fez retomar o contacto com o Aurélio. Distraiu-se com a conversa enquanto o Aurélio lhe contava os problemas que anda a ter de coluna e que desconfia serem bicos de papagaio em estado avançado. Fala com ele para pagarem a conta a meias e ele não aceita. O leitor jura que não quer estar mais com o Aurélio porque está farto das queixas dele e corta a amizade de vez. Quando o político o for visitar a casa pela última vez (é a 3.ª vez que o visita nos últimos 8 anos) vai-se lembrar da obra e do empreendedorismo do político. “Claro que me lembro do seu trabalho”, diz o leitor ao político. “Por causa disso, até deixei de falar com o Aurélio que era um vigarista e um chato de primeira. Ainda bem que o senhor mandou fazer aquela obra porque assim passei a conhecer de verdade o Aurélio”. O político é bom e amigo.

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