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Morreu, recentemente, Otelo Saraiva de Carvalho e já que senti ter havido ingratidão dos que lhe não prestaram a devida homenagem, é justo agradecer ao Presidente Ramalho Eanes que lembrou aos portugueses duas coisas básicas: A pátria deve a Otelo a liberdade e a democracia! Esta é a dívida que nada, nem ninguém, tem o direito de recusar!

Esta atitude funciona como um bálsamo num tempo em que a ingratidão paira largamente por aí…

É evidente que Ramalho Eanes é um homem do 25 de Abril e Marcelo Rebelo de Sousa não é mas, ninguém silenciou o papel de Otelo nas FP-25 e, por esses “desvios”, Otelo passou anos de prisão! O próprio Mário Soares pressionou o regresso de Spínola a Portugal (exilado no Brasil e em Madrid), outro cabecilha de uma organização terrorista e, quando morreu, em 1996, Spínola teve direito a luto nacional… Otelo, injustamente, não teve! Pura ingratidão!

Bem sei que, demasiadas pessoas nunca sentiram à vontade com o 25 de Abril e, infelizmente, passaram esse sentimento aos mais novos…

Sem qualquer dúvida, devemos agradecer a Otelo o 25 de Abril. Não confundamos as coisas. Há dívidas históricas!

Muitos disseram que Otelo foi uma personagem complexa e instável. Todos somos, quando não temos a melhor ideia do que estamos a fazer… Otelo cometeu erros na época do Copcon e errou de forma quase catastrófica na época das FP-25. Podia ter sido apenas um herói mas os deuses amaldiçoaram-no com a pior das cegueiras: a consciência das suas próprias limitações. Eram então, todos muito jovens. As melhores tropas estavam em África. Os soldados revoltosos tinham pouco mais que a instrução militar. Convém não esquecer: o 25 de Abril foi feito por quase miúdos e por jovens oficiais que tinham passado várias vezes pela Guerra, nunca por uma revolução… Mesmo assim, derrubaram a Ditadura com uma grande coragem.

Otelo merecia o luto nacional! Isso não iria saldar a dívida que o país lhe tem, mas porque um país com memória não podia fazer de outra forma. Afinal, para que serve o luto nacional se não é usado quando morre a pessoa a quem devemos a liberdade e a democracia?

Otelo foi, recordo, o comandante operacional da revolução de Abril. Ele foi o estratega e, ingénuo, também foi cúmplice com as FP-25… Acredito também que ele foi o mais radical dos Capitães de Abril mas, sublinho, a ele a pátria deve a liberdade e a democracia. Esta é a dívida que nada, nem ninguém, tem o direito de recusar.

Para mim, que também lutei por isso, que também sinto na pele a ingratidão, tenho a certeza que Otelo tem direito a um lugar de proeminência histórica. Que não se esqueça: foi ele quem liderou a preparação operacional do 25 de Abril; a mobilização dos jovens capitães; o comando da operação militar bem sucedida. Disse-o, por sorte, Ramalho Eanes e qualificou-o também como “um homem bom, generoso… pouco prudente e pouco realista – contraditório, também.”

Mesmo que os mais ingratos não queiram, o dia da morte de Otelo foi um dia de luto para todos os portugueses que se reconhecem na liberdade trazida por Abril. Queiram ou não, o país ficou de luto mesmo que o Estado não o tenha reconhecido… Não se pode ser tão ingrato!…

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