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Fotografia: IMEDIATO / Ricardo Rodrigues

Paços de Ferreira assinalou, na manhã desta segunda-feira, o 48º aniversário da Revolução de Abril. Após o hastear das bandeiras, a Assembleia Municipal de Paços de Ferreira deixou o Salão Nobre dos Paços do Concelho, a sua habitual “casa”, para as instalações militares da Estação de Radar N.º 2, em Penamaior.

Além dos habituais discursos comemorativos, foram distinguidos os ex-presidentes de Junta de Freguesia que cessaram funções no último mandato autárquico –  Joaquim Martins (Carvalhosa), Filipe Pinto (Ferreira), José Luís Monteiro (Freamunde), Alexandre Costa (Paços de Ferreira) e António Carvalho (Penamaior).

Humberto Brito: “Invocar o 25 de Abril é invocar uma das suas maiores conquistas: o poder local”

“Invocar o 25 de abril de 1974 é invocar o papel decisivo que as forças armadas tiveram há 48 anos para a mudança do regime do nosso país. (…) Estando hoje numa base militar, revela-se oportuno que essa homenagem e reconhecimento sejam feitos. O tempo passa, a memória fica”, começou por afirmar Humberto Brito, frente a dezenas de representantes políticos e institucionais.

“Esta unidade assume um papel fundamental no sistema de defesa aéreo nacional, contribuindo de forma decisiva para a soberania nacional e para o cumprimento dos nossos compromissos com a Organização do Tratado do Atlântico Norte”, sublinhou, realçando o papel da NATO “para garantir a segurança coletiva, e em súmula, a liberdade”.

Em “tempos conturbados e com uma guerra na Europa Oriental que afeta toda a Europa e o mundo”, afetando milhões de pessoas, para Humberto Brito é notório que “a paz social não é um bem adquirido” e que deve receber “atenção redobrada”.

Ao invocar o 48º aniversário da Revolução dos Cravos, o presidente da Câmara Municipal destacou também aquela que reconhece como “uma das suas maiores conquistas”: o poder local. “O poder local que, de todos, é o próximo está do cidadão, capaz de captar angústias e dificuldades, resolver rapidamente problemas e de assegurar os valores de abril”, argumentou.

“É a data oportuna e adequada para que seja prestada homenagem pública aos ex-presidentes de Junta de Freguesia que nos seus mandatos abraçaram a causa pública. Cada um, com a vossa visão e engenho, aplicaram os recursos públicos que o Estado colocou ao seu dispor, para darem corpo ao princípio constitucional da perseguição dos interesses das populações. Promoveram uma sociedade mais igualitária e equitativa (…) e contribuíram para a consolidação da democracia e para a afirmação do poder local autárquico”, afirmou Humberto Brito em tom de agradecimento a Joaquim Martins, Filipe Pinto, José Luís Monteiro, Alexandre Costa e António Carvalho.

Os ex-presidentes de Junta de Freguesia de Carvalhosa, Ferreira, Freamunde, Paços de Ferreira e Penamaior foram distinguidos, no final da sessão, com uma placa de homenagem.

Miguel Costa: “É essencial transmitir os valores de Abril aos mais jovens”

“É a nossa obrigação relembrar nesta data o feito heroico dos militares decorrido há 48 anos, que tiveram com a adesão popular as condições para que a Revolução dos Cravos tivesse culminado com a construção e a renovação de um país que vivia no ostracismo, vergado pelo regime fascista e ditatorial. Mas, 48 anos depois, é de igual modo importante compreender os tempos em que vivemos, sob pena de não enxergarmos o que verdadeiramente está em causa, preocupa as pessoas, e é preciso fazer”, considerou o presidente da Assembleia Municipal de Paços de Ferreira, Miguel Costa.

“Importa compreender o que acelerou estas novas realidades que vivemos, o que leva ao afastamento dos cidadãos comuns da ação política, o que gera as derivas políticas extremistas, o que gera o descontentamento geral que provoca um sentimento de desconfiança face aos governantes e instituições. Nestes 48 anos o mundo mudou e Portugal não é exceção”, afirmou.

No seu discurso, Miguel Costa mencionou ainda as gerações mais jovens, que considera que enfrentarem maiores desafios no acesso ao emprego e “sentem que não são ouvidas e chamadas à participação autárquica”, rejeitando modelos de governança e de participação cívica com os quais as gerações anteriores viveram.

“São os cidadãos da era moderna que estão atentos ao que nos envolve e progridem o nosso país, que têm ideias inovadoras e empreendem, que rasgam tabus e preconceitos e que constroem o seu próprio modelo de família e escolhem em quem confiar e que desejam construir um futuro melhor para a sua geração. Temos a obrigação moral, social e política de os compreender e de lhes dizer que acreditamos neles, que eles são o nosso futuro coletivo, lembrando-nos de que com alicerces, tais como com um edifício, que hoje se constrói um futuro com bases sólidas”, indica.

Mencionando ainda a guerra na Ucrânia, que “vai mudar o mundo”, Miguel Costa considera essencial “transmitir os valores de Abril aos mais jovens” para que estes saibam que “independentemente das circunstâncias, há valores que não caem em desuso e são sempre a base sólida das mais futuristas sociedades dos países mais evoluídos”.

Luís Miguel Martins: “Liberdade e democracia são sempre obras inacabadas”

Um dos mais jovens deputados da Assembleia Municipal de Paços de Ferreira, Luís Miguel Martins, subiu ao púlpito em representação da bancada socialista. “Eu, como tantos outros jovens da minha geração, somos filhos da democracia que olham poeticamente para a conquista da liberdade pelo povo e que nunca souberam o que foi viver a eternidade da ditadura e sentir a liberdade como apenas um sonho”, proferiu.

“Passados 48 anos, as ambições de Abril não se desvaneceram com o tempo, antes se reforçaram. A liberdade não é um ponto de chegada, antes um processo. A democracia não é um valor absoluto, antes um momento que carece de inovação, melhoria e reforço. Celebrar Abril é relembrar os que o fizeram, celebrar a coragem, comemorar a valentia daqueles que colocaram a esperança e o sonho coletivo em primeiro lugar. Hoje, 25 de abril, é celebrar, homenagear, mas acima de tudo recordar aos mais jovens que a liberdade, com todas as suas responsabilidades e consequências, é o grande fundamento da dignidade humana”, afirmou o deputado na Assembleia Municipal, que argumentou que “liberdade e democracia são sempre obras inacabadas” e que nunca estão imunes a ameaças.

Um dos obstáculos com os quais a democracia se deparou, a pandemia, fez com que, “de repente, a liberdade que nos era dada se visse prisioneira de um vírus invisível e silencioso”. As vidas de todos mudaram mas, para Luís Miguel Martins, a “democracia não foi suspensa”.

Ao leme do navio da mudança estão hoje novamente os mais jovens, argumentou o deputado. Sem armas, mas com o poder das redes sociais e da liberdade de expressão, estão na linha da frente do combate à pandemia e do combate à desigualdade, afirmou.

“Os jovens são hoje os Capitães de Abril contemporâneos, que, não tendo a missão de lutar contra uma ditadura, têm a missão preservar, lutar, manter a liberdade e a democracia no nosso país. Não podemos ignorar o muito que ainda há para fazer pelo país e pelo concelho que desejamos e merecemos”, disse Luís Miguel Martins na sua intervenção.

Célia Carneiro: “Aquilo que conquistamos desde 1974 não é indestrutível”

“Mais uma vez, reunimo-nos para celebrar o 25 de abril de 1974 e fazêmo-lo num local que historicamente marcou o nosso concelho. A instalação da Esquadra 12 em Paços de Ferreira trouxe uma nova dinâmica a uma pequena e aparentemente esquecida vila, uma dinâmica não apenas económica e militar, mas também social”, defende Célia Carneiro, em representação do grupo parlamentar do PSD na Assembleia Municipal de Paços de Ferreira, que “louvou” a ideia de realizar a cerimónia na Estação do Radar.

“Se houve mudança que foi determinante foi o reconhecimento da dignidade da pessoa humana e os direitos a que essa dignidade implica. Com o 25 de abril passamos de um estado paternalista para um estado onde o povo decide e manda. Com o 25 de abril, passamos de um estado onde as mulheres eram enaltecidas como esteio da família e da sociedade, mas onde não tinham direito sequer de votar, para um estado onde as mulheres, ainda com todas as dificuldades existentes, assumem cada vez mais papéis de maior responsabilidade e podem ousar sonhar”, afirmou.

“Hoje, Portugal está no pelotão da frente dos direitos humanos. Mas não nos iludimos. Há ainda muito a fazer, há condições nas prisões a melhorar, há que garantir que ninguém morre às mãos de forças do estado que têm a função de nos proteger. Há que garantir que todos e todas independentemente do género, orientação sexual, raça e local de nascimento são tratados com a mesma dignidade e respeito”, indica.

Para Célia Carneiro, a Europa enfrenta atualmente, com a Guerra na Ucrânia, “o maior desafio das últimas décadas”, que evidencia que “a luta pelos direitos humanos nunca está acabada. Cada ucraniano morto, torturado, violado e obrigado a fugir de sua casa para sobreviver é um ataque à dignidade de todos os seres humanos. Porque a dignidade humana é só uma”, defendeu, na sua intervenção.

“Por tudo isto, Portugal e o nosso concelho têm de estar no pelotão da frente no apoio às vítimas desta calamidade. Este conflito veio mostrar que afinal a democracia, o direito de escolha, de certa forma o modo de vida da Europa Ocidental não é um dado adquirido. Aquilo que conquistamos desde 1974 não é indestrutível. A paz que a Europa finalmente conseguiu alcançar é afinal, frágil, e depende de cada um de nós”, declarou.

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