férias / ecofeminismo / Metamorfose / Empatia / Vale do Sousa / Guerra / Estado / Raiz / Progresso / Mobilidade / Vale do Sousa / feminino / Festa /Património / Ambiente / Regionalização / Discurso / O imperativo ético do Vacinar

Agosto, há muito, que no hemisfério norte, se tornou, convencionalmente, o mês de férias. Mesmo com a democratização do turismo, este mês, bem como outras alturas do ano, não perderam essa condição, tão valorizada, tida como “fuga à rotina”, uma espécie de libertação episódica tão ansiada.

As férias são aproveitadas de diversas formas : fazer turismo, rever amigos e familiares, matar saudades da terra natal, participar e contribuir nas inúmeras festas que se espalham pelo país fora, fazer aquelas obras ou arranjos em casa, e por aí adiante. Enfim, como disse atrás, algo diferente do dia a dia em que o comum dos seres humanos se embrenha na contemporaneidade. Refiro-me ao comum dos seres humanos, como aquele que, forçosamente, tem que cumprir com as prescrições estabelecidas para se integrar, ou como se diz agora, para se incluir na sociedade onde vive : a exceção são todos aqueles que, pelo seu estatuto, capacidade financeira ou outras,  simplesmente não possuem este tipo de obrigações – acontece, muitas vezes, estarem na criação das mesmas para o comum dos seres humanos.

De todo o modo, às férias, tal como elas são concebidas na modernidade, estão associados vários aspetos que podemos enquadrar na violência estrutural. Sublinho, estrutural, como sensação de “obrigação” em proceder de determinada forma; e não instrumental, usada para criar a dor – de qualquer espécie- de forma imediata.

Um dos aspetos prende-se, justamente, com o facto de algumas alturas do ano serem determinadas como férias, isto é, o comum dos seres humanos é conduzido a esses períodos a partir de uma quantidade de regras que mais não são que um conjunto de barreiras que os contêm: formam-se assim os rebanhos – algo tão primordial para a docilidade que deve caracterizar a comunidade. Esta válvula de escape, este abrir de cancela, é vital para que o comum dos seres humanos se sinta, de alguma forma, livre, que possa extravasar algum do seu ressentimento. Mas, sempre em conjunto. Por um lado, porque facilita o controlo e otimização de recursos ou,  se quiserem, de produtividade; por outro porque a humanidade ainda não perdeu aquela característica antiga, observada por Nietzsche em “Genealogia da moral”, de terna consideração pelo “espetador”, que continua a não conseguir «imaginar a felicidade sem espetáculos e festas.»

Longe vão os tempos das pausas entre os trabalhos de subsistência dependentes dos ciclos naturais, de que as férias, em certo sentido, são uma reminiscência adulterada pela violência estrutural. Talvez, considerando o aspeto focado e outros que o não foram devido à natureza, necessariamente curta, de um artigo deste tipo, fosse de repensar as férias num contexto de pausa que contribuísse efetivamente para o equilíbrio de cada um, de um com os outros, e de todos com a natureza: uma espécie de fórmula de encontro com o mundo numa afirmação que transcende a da violência estrutural – a vida.

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