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Ana Luísa Amaral, que morreu recentemente foi, é, uma poeta que nos deixou palavras, muitas, que nos levam a pensar… Disse muitas verdades em poemas que não devemos esquecer… Disse, por exemplo: “Preciso de escrever e escrevo, escrevo-me”.

Não sou, nunca fui grande entusiasta da sua poesia mas o verso que transcrevo leva-me a dizer que, como ela, neste momento da vida quase só escrevo porque não o fazer, me faz falta!

É certo que para ALA tudo e todo o mundo cabia na sua poesia… Não sinto exactamente o mesmo mas isso também não interessa porque não é exactamente de mim que pretendo falar. Hoje.

Como ela, entendo que toda a poesia não é, não pode ser “alheia ao mundo” e, como ela, entendo ser um dever a luta pela liberdade, pela justiça, pela solidariedade. Dizia a poeta: “É tão importante o amor, o gesto em direcção ao outro…” Por isso A. L. Amaral quis sempre sentir o que está à nossa volta, o quotidiano, o amor, a solidão… Estes foram temas que a poeta enalteceu porque, para ela, tudo era “poetável”, como sempre quis dizer.

Aqui, não concordei outra vez com ela e por isso defendi e ensinei que os vocábulos, todos, não cabem sempre num poema…  Bem sei também que, havendo essa exigência, ou essa necessidade da escrita, como A.L.A. defendia, tudo seria viável num poema e ela precisava da escrita, de um verso que fosse, para dizer não e esse gesto, essa vontade, serviram para cultivar a sua arte de dizer “não” em toda a poesia.

Algumas vezes Ana Luísa Amaral se interrogou sobre a possibilidade de, ela própria, escrever como mulher, no feminino. Naturalmente, na sequência de alguns comentários sexistas, sem fundamento, sempre respondeu: “Poeta escreve como poeta”. E eu, categoricamente, acrescento: o que nos traz a poesia de ALA não é o feminino nem o masculino. Foi, é sim, um olhar sobre o mundo, sobre o que anda à nossa volta e que precisa de um olhar atento, de reprovação e acusação, tantas vezes. O que nos rodeia, o que ouvimos e lemos tantas vezes, precisa sim de ser acusado e até, se possível, de ser reinventado.

Por tudo o que disse, quero salientar a arte de dizer não de ALA, o seu exemplo de cidadania, a sua capacidade de não usar o texto escrito para criticar e/ou dizer mal dos outros… Aqui, de salientar outra vez, a sua obra como testemunho do princípio teórico de que a poesia se escreve só na poesia e, tudo o que está mal, precisa de ser apagado ou, como referi, reinventado.

Como todo o poeta digno desse nome, também ALA convida sempre a pensar a verdade e, mesmo que os seus textos tenham sido sempre feitos de tanta coisa, o que herdamos todos da poesia da A. L. Amaral, é essa abundância da construção dos poetas. Dos que o são, verdadeiramente!

Li, leio a poesia da autora que nos deixou, como uma obra sincera, simples talvez, franca, cheia de generosidade. Que não cabe a todos, naturalmente. Talvez não seja assim tão simples como parece na primeira leitura porque essa aparente simplicidade é devida, tantas vezes a uma altíssima prosa na sua poesia. Mesmo que o real tenha estado tantas vezes na própria poesia, na escolha curiosa das palavras e, sobretudo, no seu potencial transformador. Às vezes, como tantas vezes aconteceu, há palavras que se repetem de livro para livro, de poema para poema e, um aparente estilo coloquial, disse verdades e marcou posições que obrigam o leitor a pensar! Ou mesmo a reagir!…

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