Carlos Alves
Fotografia: Direitos Reservados

Recorda com nostalgia os tempos em que integrou o Governo, durante uma fase de privatizações e de criação de condições para adesão ao Euro, mas refuta regressar à vida política.

Carlos Alves nasceu em Paços de Ferreira em 1966. O ingresso pela área da economia surgiu um pouco por instinto, mas foi uma escolha “feliz”, considera, em entrevista ao IMEDIATO o professor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, ao explorar uma carreira de cargos de destaque nacional. A situação atual do país foi um dos temas abordados, assim como o seu amor pelo FC Paços de Ferreira, clube onde é presidente do Conselho Fiscal.

– Como se inicia o seu percurso na economia?

Em boa verdade, resultou da conjugação de dois fatores. Por um lado, das alterativas que tinha disponíveis na Escola Secundária de Paços de Ferreira, que eram escassas. Por outro lado, do gosto pela matemática.

O primeiro fator afastou-me de algumas engenharias, e o segundo afastou-me do direito. Da medicina já estava afastado por falta de vocação (na realidade, eufemismo para falta de estômago). Tudo isso encaminhou-me para a área da economia.

Confesso que, na altura (meados dos anos oitenta), não tinha uma ideia muito clara e informada sobre o objeto de estudo da ciência económica e sobre o papel de um economista. Lembro-me até de, ainda estudante do secundário, ter procurado informação na biblioteca municipal. O único livro que encontrei tinha uma perspetiva muito marxista da economia e dos economistas. Fiquei um pouco assustado. Hoje concluo que fui feliz na escolha. Todavia, tenho a convicção de que igualmente me poderia ter realizado se tivesse escolhido uma área científica da engenharia ou o direito.

– Entre as várias funções de relevo que já desempenhou, quais destaca?

Tenho já mais de trinta anos de exercício de atividade profissional. Já fiz muita coisas que me realizaram. Todo o meu percurso é marcado por uma carreira universitária que nunca abandonei, quer na vertente do ensino, quer na vertente da investigação.

Todavia, igualmente desempenhei funções fora da universidade que me deram enorme satisfação. Nestas, tenho de destacar as funções que desempenhei como administrador na Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), durante mais de 10 anos. De igual modo, foi muito gratificante integrar os órgãos de cúpula de autoridades europeias como a ESMA – European Securities and Markets Authority (que é a autoridade europeia para o mercado de capitais) e o ERSB – European Systemic Risk Board (que é a autoridade europeia para supervisão do risco sistémico).

Mais recentemente tive igualmente experiência como administrador de um banco que igualmente foi muito enriquecedora.

– Como descreve a sua experiência enquanto Adjunto do Secretário de Estado do Tesouro e das Finanças? Regressaria a um cargo no Governo?

Eu ocupei funções no Ministério das Finanças numa fase interessantíssima. Foi a fase das grandes privatizações e da criação de condições para adesão ao Euro. A minha responsabilidade principal foi ao nível da definição do programa de privatizações e da coordenação da sua execução. Isso permitiu-me, ainda muito jovem, intervir em operações de grande complexidade e dimensão. Foi um período de aprendizagem muito grande.

Orgulho-me de ter contribuído para que, num período de três anos (de 1995 a 1998), se tivesse concretizado um ambicioso programa de privatizações, que muitos consideravam não exequível. O programa foi executado de forma exemplar aos mais diversos níveis, e foi muito importante para que Portugal conseguisse ser um dos países fundadores do Euro. Orgulho-me de ter dado um contributo para isso.

Quanto à segunda parte da pergunta, não ambiciono cargos políticos. Há muitas formas de servir a sociedade e de contribuir para o desenvolvimento económico e social do país, que não passam pelo desempenho de cargos políticos. É nisso que eu estou concentrado, e a minha atuação pública faz sobretudo ao nível da SEDES, de que sou Vice-Presidente. A SEDES é uma associação cívica que com 52 anos de existência, ao longo dos quais tem tido um papel relevantíssimo na nossa sociedade. A sua tarefa é contribuir para a formulação e para a adoção de políticas que acelerem o desenvolvimento económico e social do país, sem fazer política. A SEDES faz políticas e não políticos e é nisso que eu estou concentrado.

– Já há vários anos que é professor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto. O que o faz continuar ligado à educação?

Se me permite, eu não diria educação, dado que já não é na universidade que se educa. Os alunos são supostos chegarem às nossas salas de aula já educados. Na universidade ensina-se e produz-se conhecimento. Ora, o conhecimento sempre me atraiu. Acho que é a base de tudo. O conhecimento mudou a minha vida, o conhecimento tornou a vida de todos nós muito melhor e o conhecimento é a base em que teremos de estruturar o futuro das gerações vindouras.

Na universidade também se produzem cientistas, que irão produzir o conhecimento no futuro. É, aliás, isso que neste momento mais me ocupa. Enquanto Diretor do Doutoramento em Gestão da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, eu procuro assegurar que os nossos recém-doutorados sejam capazes de se integrar na comunidade científica internacional e de dar um contributo significativo para a expansão do conhecimento nas suas áreas de especialidade.

– Ainda tem objetivos profissionais por cumprir no futuro? Quais?

Tenho 55 anos, pelo que ainda tenho muitos anos de atividade profissional pela frente. Todavia, o único objetivo que tenho é terminar a minha carreira com a dignidade que julgo ter tido até aqui, e continuar a contribuir para o avanço do conhecimento nas áreas da economia e da gestão e para a sua disseminação.

– Mantém uma ligação ao clube da sua terra-natal, o FC Paços de Ferreira, sendo presidente do Conselho Fiscal. Como começou a conexão e como tem acompanhado o percurso do clube e dos emblemas da região?

Desde que nasci que sofro pelo Paços. Algumas das memórias mais antigas que tenho são desta faceta da minha vida. Quando era jovem era daqueles que de manhã assistiam a dois jogos das camadas jovens e à tarde aos jogos dos seniores.

O facto de ser agora presidente do Conselho Fiscal deve-se apenas à circunstância de, num momento crítico do clube, eu sentir que tinha a obrigação de dar um contributo para que o Paços de Ferreira continuasse a ser um clube dos sócios e só dos sócios. Para mim, só assim o futebol faz sentido. E o Paços de Ferreira é, nesta altura, dos poucos, senão o único do futebol profissional português, que é inteiramente dos sócios. Eu quero continuar a ser sócio e adepto do Paços e não cliente de uma empresa comercial. Quando vou ao cinema aceito ser cliente, quando vou ao futebol quero ir como sócio e adepto e não como cliente.

– Tendo em conta a sua localização geográfica e características, considera que o concelho de Paços de Ferreira tem mais vantagens em aderir à Área Metropolitana do Porto ou em continuar integrado na Comunidade Intermunicipal do Tâmega e Sousa?

O nível ótimo de decisão, depende da decisão a tomar. Há decisões que devem ser tomadas a nível europeu. Há outras que devem ser tomadas centralmente, ao nível do país. Outras ainda a nível regional. Algumas a nível intermunicipal. Por fim, outras pelos concelhos e freguesias. Infelizmente, andamos há mais de trinta anos a falar de regionalização e não fomos ainda capazes de nos entender sobre a matéria. A questão que me coloca situa-se ao nível das decisões que devam ter uma natureza intermunicipal.

A minha perspetiva é a de que o desenvolvimento se faz, em grande medida, a partir de regiões e cidades estrela. Por isso, temos mais a ganhar ligados a cidades mais desenvolvidas e a centros mais cosmopolitas do que ficando afastados desses centros. É indiscutível que o desenvolvimento da região norte e, se correr bem, de todo o litoral norte de Coimbra à Corunha, terá epicentro no Porto. A essa luz, tudo o que nos interligue mais intensamente à cidade do Porto (designadamente em matéria de transportes) é positivo.

Todavia, isso não quer dizer que não existam algumas decisões em que faz mais sentido que sejam pensadas ao nível do Tâmega e Sousa. Assim, não me parece ótimo que tenhamos de tomar todas as decisões de natureza intermunicipal no quadro do Tâmega e Sousa ou no quadro da Área Metropolitana do Porto. Deve ser a natureza do que está em jogo a determinar o quadro intermunicipal da decisão, e não devemos ter um quadro intermunicipal estanque a condicionar todas as decisões. Bem sei que esta geometria variável não se compadece com a realidade institucional existente, mas parece-me ser aquilo que faz sentido. A regionalização poderia dar uma ajuda na criação destas soluções de geometria variável.

– Como vê a atual situação do país? Qual considera que vai ser o cenário durante os próximos anos? A recessão é o desfecho mais provável?

Importa distinguir a dimensão do crescimento económico, estrutural, da situação macroeconómica, conjuntural.

Começando pela questão do crescimento, a economia portuguesa registou um desempenho positivo nas últimas décadas do século XX. O crescimento médio verificado entre 1961 e 2000 foi de cerca de 4,5% ao ano, o que equivale a dizer que neste período o PIB português evoluiu a um ritmo que permitiu a sua duplicação a cada 16 anos. Todavia, entre 2001 e 2019 o crescimento ocorreu a um ritmo muito mais lento: apenas 0,73% ao ano em média. A este ritmo demorará 95 anos a duplicar a produção. Além disso, nos últimos 20 anos, a economia portuguesa tem igualmente revelado falta de competitividade em outros indicadores e formas de apreciação.

Donde, a situação que o país viveu nos últimos 20 anos está muito longe de ser positiva, ou até aceitável. É necessário adotar políticas que invertam esta perda de competitividade. Poderíamos ficar o dia inteiro a falar sobre estas políticas, mas isso escapa certamente aos propósitos desta entrevista.

Relativamente, à conjuntura macroeconómica, estamos confrontados com um problema de inflação, e com uma guerra na Europa, numa altura em que nos aprestávamos para sair da crise de saúde pública COVID 19, que teve um impacto muito significativo na conjuntura económica. A situação conjuntural não é, pois, a mais favorável. Todavia, estamos muito longe de se poder perspetivar uma recessão. Alguma desaceleração será inevitável para conter a inflação. Na minha opinião, o Banco Central Europeu poderia e deveria ter atuado mais cedo, o que poderia evitar a tomada de medidas mais duras do que aquelas que provavelmente vão ser necessárias. Em todo o caso, se o surto inflacionista puder ser contido com subidas moderadas nas taxas de juro – vamos ver como a economia reage às subidas das taxas de juro já decididas e a adotar num futuro próximo -, e não se registar a erupção de riscos inflacionistas estruturais que têm estado relativamente adormecidos (designadamente os decorrentes da política monetária adotada na última década), será possível reestabelecer a estabilidade dos preços sem desencadear uma recessão económica. Desaceleração sim, recessão provavelmente não. Todavia, temos de ir aguardado para ver como o “doente” reage à medicação. Se a dose tiver que ser forte o impacto económico será mais severo.

– O que considera que falta fazer pela região do Tâmega e Sousa?

O que falta fazer pela região do Tâmega e Sousa é aquilo que falta fazer pelo país. Um país com uma história tão longa e rica como a de Portugal não pode deixar de aspirar a fazer parte do grupo de países mais desenvolvidos. A região do Tâmega e Sousa tem de fazer parte disso. O desenvolvimento tem de implicar coesão territorial. Tem de chegar a todo o país.

Claro que o desenvolvimento pressupõe infraestruturas impecáveis. Apesar de o país não estar mal em muitos domínios, há ainda muito a fazer em matéria de acessibilidade ferroviária, aeroportuária e portuária, bem como em outros domínios. Por exemplo, demorar mais de três horas de comboio do Porto a Lisboa em pleno século XXI é simplesmente inaceitável. Também na região do Tâmega e Sousa temos muito por onde melhorar, desde logo nas próprias ligações entre os diferentes municípios.

Todavia, numa região como a nossa, com um amplo tecido industrial e capacidade empreendedora, não me parece que o problema essencial sejam as infraestruturas. Aquilo que precisamos, na minha modesta opinião, é de aproximar as empresas do conhecimento. Permitir que o conhecimento entre nas empresas da região, seja este ao nível tecnológico, ou ao nível da gestão e governo das próprias empresas. Os países desenvolvidos caracterizam-se por produzir produtos complexos, que incorporam muita ciência e muita tecnologia. Também se caracterizam pela excelência da sua gestão e do seu governo. Assim, o que me parece crucial para o desenvolvimento das empresas e da região é criar as condições para que o conhecimento, aos diferentes níveis, entre nas empresas e estas o aproveitem. Aproximar a região e as empresas da região dos centros de conhecimento é, pois, para mim, o que de mais importante falta fazer por esta região.

– Quais considera que são as principais carências a resolver na região?

Aquilo que me preocupa nesta região é o elevado número de pessoas em idade ativa, incluindo jovens, que nem estuda, nem trabalha. É preciso tratar da sua inclusão social, pela via da formação cívica e profissional. Há ainda uma proporção que me parece demasiado alta de jovens que abandonam precocemente o ensino. Nos tempos que correm, provavelmente a ferramenta mais poderosa de inclusão social é a educação e o acesso ao conhecimento. Nos tempos atuais, há o perigo de aumento do fosso entre pessoas digitalmente incluídas e excluídas ou competentes e incompetentes. Julgo que, apesar de todos os progressos registados, ainda estamos longe de ter criado as condições para que cada um dos habitantes desta região tenha as condições para atingir o seu máximo potencial.

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