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Não consigo confirmar a intenção que me parecia possível face à invasão da Ucrânia por Putin, a de não escrever sobre o assunto. O que ouço, o que leio, o que sinto é mais forte que qualquer intenção…

Zelenskii, presidente improvável, fez-se símbolo da resistência de um país e a frase que proferiu e que correu mundo foi, está a ser uma declaração de firmeza que ecoa por todo o lado: “Quando nos atacarem, verão as nossas caras e não as nossas costas.”

Foi e está a ser isso o que acontece hoje na Ucrânia já que esse foi também o seu objectivo no momento da sua eleição: o candidato de uma Ucrânia aberta, virada para o Ocidente, contra o então candidato do sistema. Desde a independência em 1991, nenhum outro Presidente ucraniano tinha obtido um mandato tão expressivo e Zelenskii tem provado claramente que merecia essa confiança! Tem sido, está a ser um exemplo de resistência!

E depois, agora, são horríveis as informações que nos chegam e parece não ser possível acreditar que isto está a acontecer no nosso tempo, no século XXI. Em dias consecutivos, ouvem-se explosões e as sirenes de raides aéreos ecoam pelas cidades. Há mortes, há destruição e as crianças, as crianças sobretudo, estão apavoradas, elas choram e dói saber que elas perguntam com insistência: vamos morrer? Isto não devia ser possível, não devia ser possível terem de fugir do país, das cidades, apavorados, com medo. Muito medo…

Enquanto no palco internacional é cada vez maior o isolamento da Rússia, no terreno ucraniano intensifica-se a ofensiva e ouvem-se à distância os alertas, as muitas explosões em várias cidades. O medo intensifica-se em Kiev, em Lviv, em Kharkiv… e acentuam-se as falhas de comida nos supermercados, de medicamentos… de assistência médica… perante uma multidão aflita que tenta fugir. Um míssil atinge a torre de televisão de Kiev e o significativo memorial do Holocausto… Não é possível perdoar quem comete tais atrocidades!

No meio deste caos, a fuga de ucranianos é incessante. Alguns, com sorte, terão uma cama do outro lado da fronteira, uma sopa quente, mas isso é uma gota de água num oceano pintado de sofrimento… A solidariedade generaliza-se e há imensas ondas de apoio que não serão suficientes para apaziguar os que sofrem.

Ainda na estação de comboio de Lviv, a filha de Alexei não consegue conter as lágrimas, porque a sua mãe desapareceu em Kharkiv… No centro da cidade, numa cama com vista para o palco de um teatro transformado em refúgio, está Svetlana, uma professora que abandonou Kiev. A voz treme-lhe quando fala do marido que ficou para trás a fazer “cocktails molotov”. Sente que tem poucas hipóteses de o voltar a ver… As despedidas, se as há, já foram feitas mas quem fica e quem vai continua a ver-se, mesmo sem se poder tocar…


“Ainda na estação de comboio de Lviv, a filha de Alexei não consegue conter as lágrimas, porque a sua mãe desapareceu em Kharkiv”


E volta-se a Alexei que veio de Kharkiv com a filha de 8 anos. Como tantos outros, conta uma história partilhada por tantos outros dos seus compatriotas. Fugiu da sua cidade depois de um bombardeamento e… diz não saber da sua mulher. Continua a ligar-lhe e ninguém atende… No meio de uma explosão, saiu a correr do edifício e quando voltou não viu ninguém… Alexei continua a esperar… O comboio não espera… E as lágrimas da filha de Alexei continuam a fugir dos olhos azuis da menina que não sabe da mãe…Num país onde a neve continua a cair. Branca. A cor da paz…

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