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Eu sei que não é fácil ler outra vez sobre a guerra na Ucrânia… Eu sei que não é fácil voltar a ler sobre um teatro que se transformou num abrigo para os que fogem da guerra… Agora, as cadeiras da plateia estão vazias… Desapareceram. À volta, no interior do edifício, há camas alinhadas. Num canto, brinquedos e livros. Todos falam baixo mas a boa acústica da sala amplifica os gritos de aflição… No fundo da sala, um vídeo de Kiev está a rodar num qualquer telemóvel. Quem entra vê os camarins. Ainda há retratos de mulheres e homens bonitos e felizes… mas as imagens não são de agora. Há um adolescente sentado, passivo. Alguém entrevista Svetlava… ela chora. Ao longe, ouvem-se os disparos ameaçadores. Alguém empunha em V de vitória e, por segundos, a mesma Svetlava esquece a guerra…

Agora, parece, as sirenes têm tocado menos. Há pessoas que dormem vestidas. Até calçadas. Fora do teatro, na cidade, há vários locais de abrigo e todos esperam que as sirenes deixem de tocar. Há pessoas que rezam. A qual deus? Elas pedem ajuda… Timidamente, uma mulher magra, com um gorro vermelho, fala baixinho e chora. É grande a dor! Tenta sair do teatro refúgio e o frio intenso, bate na cara dos que odeiam a guerra. Continua a haver uma alma intensa, belicista, nos homens e mulheres ucranianas. Outros sentem medo. Muito medo… Há também muita gente nova que quer acertar na cabeça de um russo. Para travar esta guerra. Estúpida! Sem sentido…

Fora do teatro, há blocos de cimento. Sacos de areia. Homens corajosos. Bandeiras da Ucrânia… Já na estrada, as barreiras estão a postos. A floresta de casas desfeitas é imensa, são agora esqueletos com vidraças partidas. Ao longe, um comboio gigante parado. Tudo é triste… indiferente… Há soldados ucranianos que matam soldados russos e o contrário também. Um deles pontapeia um soldado jovem coberto com uma mistura de sangue e terra. É isto a guerra! É a morte! A lista dos que partem é infindável e é cada vez mais escuro. Noite, muito escuro. Uma jovem mãe acaricia a barriga, está grávida. O marido é agora soldado, está a combater. Ela acredita que chegará o dia em que haverá paz para todos. É isso a esperança… Afinal, qual é o sentido desta guerra? Ou então, qual é a guerra que faz sentido? Afinal, esta guerra continua e a dor já tomou conta de tudo e de todos. No horizonte, longe ou perto, não se deslumbra o mastro de uma bandeira branca…

Ali, na praça central da cidade, num piano de cauda, um pianista espalha música pelas árvores, pelo fumo, pelos deslocados, pelas lágrimas… Essa é a sua forma de ser solidário… A música também é uma arma… Ele esforça-se mesmo que ninguém aplauda. Ele também não quer. Ali, o palco é dos que sofrem e também para esses, a música sabe bem. Alguém pintou junto ao piano, o símbolo da paz já que por toda a cidade não é possível descobrir marcas dessa simbologia.

Curioso, nas ruas, em algumas ruas, vendem-se tulipas. De todas as cores. Malmequeres brancos também! Nesse dia, o céu parecia estranhamente silencioso e o pianista não deixava que o frio lhe prendesse os dedos… Do outro lado da praça, algumas mulheres aquecem água. É necessário muito chá quente e há mulheres e crianças que procuram aconchego. Ainda é possível aquecer as mãos e os pés com lenha a arder e fumo benzido… O pianista esforça-se mas a sua música não conforta todos os corações… Do outro lado da praça, a sair do fundo da estação de abrigo, há mais música de violino… Mas a guerra continua, apesar da música. Por quanto tempo?

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