Invasão do capitólio ou sintoma de doença na Democracia
Academia Pro. Albino de Matos

Quando o historiador grego Tucídides analisou a Guerra do Peloponeso, há mais de dois milénios, deixou-nos uma das lições mais cruas sobre a natureza do poder: o que tornou a guerra inevitável foi o crescimento do poder de Atenas e o medo que isso instilou em Esparta. Séculos mais tarde, o cientista político Graham Allison cunhou o termo “Armadilha de Tucídides” para descrever este padrão implacável: sempre que uma potência emergente ameaça suplantar a potência dominante, o conflito armado torna-se quase matemático.

Recentemente, esta estrutura histórica saltou dos livros para a diplomacia de primeira linha quando o presidente chinês, Xi Jinping, se referiu explicitamente a ela. Xi afirmou que a Armadilha de Tucídides não é um destino fatal, mas sim um aviso severo: se as grandes nações persistirem em erros de cálculo estratégico, acabarão por cavar a própria cova que tentam evitar.

Para o leitor comum, imerso nas dinâmicas e preocupações da nossa escala regional, este debate entre Washington e Pequim pode parecer um eco distante de gabinetes estrangeiros. No entanto, olhar para o mundo através della lente da lucidez exige que percebamos que a grande geopolítica obedece à mesma mecânica elementar que rege as nossas vidas individuais: a lei do atrito.

Há uma tendência na opinião pública contemporânea para viver anestesiada por uma ilusão de paz perpétua, alimentada pelo consumo fluido e por narrativas adocicadas. Esquecem que, quando dois gigantes se movem no mesmo plano de influência, a fricção é inevitável. Não se trata de maldade de um lado ou de heroísmo do outro; trata-se da biologia crua das estruturas de poder.

Xi Jinping, ao nomear a armadilha, tentou operar um ato de discernimento contra o sonambulismo estratégico. Ele percebeu que o maior perigo não reside na competição económica, mas na passividade com que as nações podem deslizar para o abismo quando perdem o esforço da compreensão mútua. Quando os líderes abdicam da lentidão do pensamento crítico e se rendem ao medo simplista, estão a assinar a sua própria rendição cognitiva.

Longe de ser pessimista ou otimista, a verdadeira lucidez limita-se a expor o osso da situação. Evitar a Armadilha de Tucídides exige reconhecer a nossa vulnerabilidade biológica comum. Tal como os indivíduos precisam do olhar e do reconhecimento do outro para existirem sem asfixiar na solidão, também as superpotências necessitam de aceitar os limites da sua própria matéria e validar o espaço de sobrevivência do oponente.

Não sendo um produto que se consome sem desgaste, a paz é uma arquitetura pesada que exige o esforço diário da presença e da fricção diplomática real. Compreender isto, a partir das páginas deste jornal, é abdicar da inocência. Num mundo profundamente interconectado, o tremor dos gigantes altera a economia, a segurança e o chão que pisamos no nosso quotidiano. Olhar de frente para esta gravidade não é um sintoma de desespero — é a única forma de estarmos, coletivamente, acordados.

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