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O espírito de missão e a solidariedade entre corporações marcam a resposta à catástrofe que atingiu o distrito de Leiria na passada semana. Um grupo de 36 bombeiros voluntários, representando nove associações humanitárias da região do Tâmega e Sousa, apoiados por nove veículos, encontra-se mobilizado no terreno naquele que foi denominado Grupo de Desobstrução CRESP Tâmega e Sousa e que é comandado por Vítor Meireles, comandante dos Bombeiros Voluntários da Lixa.

A força operacional começou a trabalhar em Leiria esta terça-feira, dia 3, e está focada na desobstrução de vias públicas e na libertação de acessos a habitações que ficaram isoladas ou danificadas após a passagem da tempestade Kristin na madrugada de 28 de janeiro. O cenário encontrado pelas equipas é descrito como “catastrófico”, com infraestruturas destruídas e o próprio quartel dos Bombeiros Voluntários de Leiria severamente afetado.

A missão conta com a participação de várias corporações, incluindo bombeiros de Penafiel, Paço de Sousa, Entre-os-Rios, Lousada, Felgueiras, Lixa, Castelo de Paiva, Celorico de Basto e Baião. Além dos recursos humanos, foram deslocados meios técnicos e equipamentos como geradores para suprir as falhas de energia que ainda afetam diversas zonas.

A tempestade Kristin, que entrou em Portugal precisamente pela zona de Leiria, causou um rasto de destruição que inclui quedas de árvores, cortes de estradas e danos estruturais em centenas de edifícios, mobilizando agora uma vaga de solidariedade nacional sem precedentes.

Vítor Meireles, comandante dos Bombeiros Voluntários da Lixa, lidera grupo

O grupo da região, comandado e coordenado por Vítor Meireles, comandante dos Bombeiros Voluntários da Lixa, está a trabalhar na desobstrução das vias, assim como na segurança das pessoas e na criação de condições para que possam regressar às suas casas o mais rapidamente possível.

Vítor Meireles foi desafiado pelo Comando Sub-regional de Emergência e Proteção Civil do Tâmega e Sousa (da ANEPC) para esta missão, que assumiu “sem hesitar”. “Aceitei na hora”, referiu, dando nota de que a missão do grupo passa por desobstruir vias, criar acessibilidades para que as pessoas possam circular em Leiria, ter acesso a bens essenciais e regressar às suas casas em segurança o mais rápido possível.

A chegada a Leiria não foi fácil e aquilo que é habitualmente cenário de filme, mostrou-se uma dolorosa realidade. “Pensámos que estas coisas só existem nos outros países e que são coisas de filmes, mas estar aqui e ver esta realidade é algo assustador, lembrámo-nos dos nossos e das nossas coisas e que isto também nos pode acontecer a nós”, referiu.

O trabalho que agora começaram deve prolongar-se aos próximos dias e tem sido muito e a ajuda que levam não é suficiente, mas é muito bem acolhida pela comunidade. “Temos pessoas aqui que perderam tudo, pessoas que estão completamente isoladas do resto do país, sem luz, casa, alimentação e é muito difícil gerir estas questões. E afeta-nos ver pessoas em filas a pedir telhas, bens de primeira necessidade a tentarem criar condições mínimas para sobreviver a esta desgraça”.

Mas além disso, afirma, é muito difícil gerir aquilo que não se vê a com a frustração de não poderem fazer mais. “Há muito trabalho a fazer, não somos suficientes. E depois há coisas que não se conseguem resolver e não ficamos satisfeitos por não poder dar a esta gente aquilo que eles merecem e precisam”, referiu.

Contudo, apesar do trabalho árduo, a equipa está “com imensa vontade de ajudar”, mesmo sabendo que são infindáveis. “E é isso que mais nos custa”, assegurou, dando nota de que, para preservar a capacidade operacional, o grupo vai sofrendo rotações, garantindo que a ajuda não pare. “E no final, é o estarmos próximos da população, saberem que chegamos para ajudar como podemos e que não estão sozinhos. Há coisas que não conseguimos resolver, mas temos a certeza de que, o que é da nossa responsabilidade, estamos a dar o nosso melhor”, concluiu.

A missão deverá prolongar-se pelos próximos dias, com os operacionais do Tâmega e Sousa a darem o seu melhor para devolver a dignidade e a esperança a uma Leiria fortemente fustigada pela tempestade Kristin.

“Foi muito difícil chegar e ver como isto está, parece um cenário de guerra”, refere Jorge Alves, dos Bombeiros de Entre-os-Rios

Jorge Alves, segundo comandante dos Bombeiros Voluntários de Entre-os-Rios é um dos 36 elementos da região que se encontra em Leiria. “Tive logo vontade de vir, só tive que aguardar autorização da minha entidade patronal”, referiu.

A missão dos bombeiros é ajudar as pessoas e, neste caso em concreto, a atuação não podia ser diferente. “Temos que ser uns para os outros, não podemos olhar só para dentro da nossa casa, porque um dia podemos ser nós a precisar de ajuda”, referiu.

A viagem até Leiria foi dura, com muita chuva pelo caminho. Mas a chegada a Leiria foi ainda mais violenta. “Foi muito difícil chegar e ver como isto está, parece um cenário de guerra, árvores partidas, casas sem telhado, armazéns sem cobertura, tudo caótico”, referiu operacional.

Apesar de habituados à desgraça, Jorge Alves assegura que “nunca se está preparado” para as situações, até pela fragilidade emocional das pessoas com que se cruzam no caminho do socorro. Nunca se está preparado para encarar estas pessoas que perderam tudo. Mas há muitas pessoas que depois de perderem tudo, querem ver uma cara diferente, uma palavra de conforto, saber que chegou alguém para ajudar”.

E isso é muito “reconfortante”. “As pessoas aqui ficaram muito contentes com a nossa chegada e não deixam de nos dizer um obrigado, o que é muito reconfortante. Estamos aqui por nossa vontade, mas percebemos que estamos a fazer a diferença. É gratificante poder fazer a diferença na vida das pessoas, fazemos aqui como fazemos na nossa atividade todos os dias, seja nos incendio, mas emergências, fazemos sempre a diferença”, assegurou.

E cria-se “empatia” com quem está em sofrimento. “É difícil lidar com os sentimentos das pessoas, começámos a ter empatia por elas, porque pensamos que podia ser na nossa casa. Porque esta tempestade estava inicialmente prevista para a nossa região e depois baixou e deu-nos mais de sossego. Mas pensamos nisso, que podia-nos ter acontecido a nós”, rematou.

 

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