Modelo Opiniao

Há perguntas que os doentes com cancro fazem ao médico. Perguntas sobre a cirurgia, a quimioterapia, os efeitos secundários, os exames que se seguem. Há outras que raramente são feitas. Não porque sejam menos importantes, mas porque parecem não caber no consultório. “Vou continuar a sentir desejo?” “O meu corpo ainda será atraente?” “Voltarei a ter relações sexuais?” “Como explico isto ao meu companheiro?”

A sexualidade continua a ser uma das grandes ausentes da oncologia.

Paradoxalmente, falamos cada vez mais de sobrevivência. Celebramos os avanços terapêuticos que permitem viver mais anos após um diagnóstico de cancro. E bem. Mas viver mais não é o mesmo que viver melhor. Entre os indicadores de sucesso que habitualmente utilizamos, raramente encontramos espaço para aquilo que faz parte da experiência humana mais íntima: o afeto, a identidade corporal, a capacidade de desejar e de se sentir desejado.

O cancro não afeta apenas órgãos. Afeta narrativas. Uma mastectomia pode retirar uma mama, mas pode também alterar a forma como uma mulher olha para si própria ao espelho. Uma cirurgia pélvica pode remover um tumor, mas deixar para trás receios, dores ou dificuldades na intimidade. Os tratamentos hormonais podem salvar vidas e, simultaneamente, diminuir a libido, alterar a imagem corporal ou transformar a relação que a pessoa mantém com o próprio corpo.

Muitos doentes descobrem que a doença entrou também no quarto. E, no entanto, poucos encontram alguém que os ajude a falar sobre isso.

Durante décadas, a medicina habituou-se a olhar para a sexualidade como um tema secundário. Como se fosse um luxo reservado para depois da cura. Mas a sexualidade não é um extra da condição humana. Não desaparece quando surge uma doença. Continua presente aos vinte, aos cinquenta ou aos oitenta anos. Continua presente em pessoas solteiras ou casadas, heterossexuais ou LGBTQIA+, sexualmente ativas ou não. Continua presente porque faz parte da forma como nos relacionamos connosco próprios e com os outros.

Muitas vezes, o silêncio nasce de ambos os lados. O médico receia não ter tempo ou formação suficiente para abordar o tema. O doente teme parecer fútil perante uma doença potencialmente fatal. E assim se instala uma espécie de acordo tácito: ninguém pergunta, ninguém responde.

Mas as consequências desse silêncio são reais. Estudos internacionais mostram que as dificuldades sexuais são frequentes entre sobreviventes de cancro e que uma grande parte dos doentes gostaria que os profissionais de saúde abordassem espontaneamente estas questões. Não procuram necessariamente soluções milagrosas. Procuram informação, validação e acompanhamento.

Talvez seja tempo de ampliarmos o conceito de cuidar. A boa oncologia não se mede apenas em meses de sobrevivência ou em curvas de Kaplan-Meier. Mede-se também na capacidade de ajudar alguém a reconstruir a sua vida depois do diagnóstico. E essa reconstrução inclui o corpo, os afetos, a intimidade e a sexualidade.

Porque o objetivo da medicina nunca foi apenas acrescentar anos à vida. Foi, e continuará a ser, acrescentar vida aos anos.

E talvez seja precisamente aí que começa uma oncologia verdadeiramente humana.

 

 

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