natal unico

Estamos em plena época natalícia, uma altura de alegria, reencontro e solidariedade. Com nostaligia, são muitas as memórias que todos guardamos desta época, umas associadas à ingenuidade própria da infância, e outras à confraternização e convívio entre família e amigos.

Imbuídas pelo espírito natalício, personalidades da região com reconhecimento nacional, partilharam com o Jornal IMEDIATO as suas memórias de Natal e os momentos vividos em família, nesta época festiva. Dom Vitorino Soares, Bispo Auxiliar da Diocese do Porto, a ator Martinho da Silva, o advogado, escritor, jornalista e poeta José Carlos Vasconcelos e o professor José Neto, recordam a magia associada ao Natal.

D.  Vitorino Soares

Dom Vitorino Soares nasceu em Luzim, no concelho de Penafiel e é o mais velho de cinco irmãos, “quatro rapazes mais velhos, a mais nova uma menina”. As memórias de Natal do Bispo Auxiliar do Porto, remetem-no para a sua infância, “tempos de sonhos, de fantasia pura”.

Nessas memórias, são figura central os irmãos, com os irmãos, com quem dormia na mesma cama e com quem procurava adivinhar o que o Menino Jesus ia deixar no sapatinho de cada um deles. “Na véspera de Natal, depois do jantar, quando nos íamos deitar, era sempre tempo para adivinhar, para tentar descobrir qual era a prenda que o Menino Jesus nos trazia. Íamos conversando sobre prendas que gostaríamos de ter e assim acabávamos por adormecer”, recorda.

Mas a curiosidade só moria no dia seguinte, após acordar, quando viam os presentes. “No dia seguinte, encontrávamos sempre as mesmas prendas: um par de peúgas e uma guloseima, um chocolate, um pacote de baunilhas. Não nos tínhamos apercebido, mas sabíamos que era o Menino Jesus que tinha trazido. Prendas com peúgas de cores diferentes, o Menino Jesus também já sabia as nossas preferências e, por isso, entre nós, nos entendíamos depois a distribuir a cor”.

Mas antes de abrirem os presentes, recorda um momento de carinho, protagonizado pela sua mãe. “E quando nos íamos a levantar, todos dávamos conta de que já tínhamos connosco a camisola interior que íamos vestir, porque, entretanto, durante a noite, sabíamos que a mãe vinha trazer essa camisola para aquecer entre os lençóis e ser mais confortável ao vestir”.

Os presentes não eram os que desejavam, mas sempre tiveram um valor especial para Dom Vitorino. Nestes, revia os seus pais. “Naquelas peúgas sempre vi o meu pai e naquela guloseima sempre vi a minha mãe. O meu pai como homem de trabalho, que se esforçava, sem férias, para sustentar a esposa e os filhos e a mãe com esse coração sempre aberto, que nos acolhia, ao marido e aos filhos.

Apesar das prendas serem sempre as mesmas e de ficarem muito longe das expetativas e desejos que tinha, viviam a acreditar que um dia, teriam no sapatinho aquilo que tanto ansiavam. “Porque estávamos convencidos que Jesus nos daria sempre uma prenda nova e diferente”, concluiu.

Martinho da Silva

Martinho da Silva passou também ele a sua infância, em terras penafidelenses e recorda “com muito carinho” a época natalícia, na sua terra natal, e os dias frios que antecipavam o Natal. Na sua memória de infância “estava sempre bom tempo, apesar do frio. O sol que desponta depois daquelas manhãs cheia de nevoeiro”.

Recorda o Natal como “um dia especial”, vivido em pleno por toda a família. “Quando recuamos no tempo fica sempre a ideia daquele conforto da família, rodeado dos meus seis irmãos, dos meus pais, era uma casa onde reinava sempre muita alegria e onde o silêncio não era fácil de encontrar”.

Presente tem ainda a Ceia de Natal, menos tradicional por causa dos seus hábitos alimentares. “Lembro-me da ceia de Natal, porque para mim, por causa do meu regime alimentar de não comer carne nem peixe, no Natal dificultava um bocado as coisas por causa do bacalhau, em que eu ficava a comer batata cozida e as hortaliças. Ainda hoje, quando como essa comida no Natal, tem um sabor especial. São as batatas do Natal”.

“E é assim que eu recordo a minha infância natalícia e que criou os hábitos que mantivemos, já na idade adulta, agora com as minhas filhas e a minha mulher, de ser uma altura de recolhimento, de estarmos com quem mais gostamos e reforçarmos a importância que é estarmos uns com os outros”.
Feliz Natal.

José Neto

O professor José Neto escolheu um conto do seu livro “Contos de Natal”, para recordar os seus tempos de infância. O conto chama-se “O menino que subiu a montanha” e conta uma história da sua avó. (…) Contaram-me que ao sétimo mês estive em casa vestidinho, feito mortalha e também de renda asseado pela Esperancinha de Inveja, pois parece que uma arreliadora pneumonia me queria levar. Contaram-me que, num acto de valentia e desespero, a minha avó correu pelo caminho do Outeiro e, soltando-me ao vento, gritava – “o meu netinho não morre!…o meu netinho não morre!…”

Contaram-me que, foram vários os meses que a Miquinhas do Sr. Urbaninho de Vale de Suz me atendeu de 6 em 6 horas com a repetida injecção reabilitadora…
…e o leite da vaca a que meu avô dispensava a melhor manjedoura, me dava o sustento e ao calor do brasido do lar que todo o dia crepitava entre as “tempras” em cada dia, ia reaparecendo, com o meu Jesus ali ao lado na Igreja a velar pela vida por tantos desenganada.

Fui conhecendo-O aos poucos naquela casa humilde por entre os olhos meigos da minha avó Emília que vigiava os meus passos e, nos dóceis lábios do meu avô Florêncio (…) Um dia, depois da canseira encantadora de ter ornamentado o meu presépio, tive vontade de ir para pertinho Dele e subi à alta torre da Igreja, só que, depois, com o medo de descer aquelas escadas todas quase a pique, lá me retive até alta noite e só com chamamentos aflitivos de minha avó, da Sr.ª Rosa da Tulha e do Sr. Padre Ramiro é que consegui descer. (…).

José Carlos de Vasconcelos

Jose Carlos Vasconcelos

O advogado, escritor, jornalista e poeta José Carlos de Vasconcelos recorda os afetos da sua infância vivida em Paços de Ferreira, sem conseguir destacar um momento das suas recordações. “Há, sim, a memória de um tempo, uma época, um clima muito especial. De afetividade, solidariedade, ligação familiar. Sobretudo na infância, quando a isso se juntava, claro, um certo halo de mistério, a ansiedade pela chegada ou não dos “presentes” desejados.

Com o correr dos anos, mantendo-se sempre muito daquele clima, deixando nós de ser os “meninos” ou os mais novos, já com os filhos e depois os netos, a festa e a alegria aumentam, ganham novas formas e cores. Mas a tristeza e a saudade também, pesam e vão pesando cada vez mais as ausências, na mesa vazios os lugares dos que continuam no nosso coração. E também cada vez mais os que o conhecem se lembrar do belo poema de David Mourão-Ferreira que começa exatamente assim: “Há de vir um Natal e será o primeiro/ em que se veja à mesa o meu lugar vazio”.

E o Natal, para mim, e nas várias fases da vida, está profundamente ligado a Freamunde e à velha casa grande em que eu e o meu irmão nascemos e já tinha nascido a minha mãe. Desde o tempo em que vínhamos da Póvoa, onde o meu pai era professor, na camioneta da carreira que terminava em Sanfins, onde o sr. Costa ou o sr. Albino nos iam buscar no seu “carro de praça”, até à falta de Freamunde, e por falta de Natal, devido à pandemia, em 2020 e (escrevi num poema longo, ainda não publicado) “a noite é de mascarados, mascarilhas,/ na cidade onde não neva/ nem brilha/ nenhuma estrela/ como na nossa terra”.

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