Joana Alves

 

Atualmente, em plena vivência da pandemia COVID-19, são vários os temas que nos acompanham diariamente e muitos os novos hábitos e rotinas que surgiram no nosso quotidiano. A par de confinamento e quarentena, apareceram as máscaras, as agora nossas melhores amigas e aliadas contra o combate da transmissão deste vírus, mas as quais nos trouxeram uma “nova” entidade patológica. Esta é a chamada “maskne”  um conceito derivado da conjugação de Mask (máscara em inglês) e de Acne, e que nos remete para o  aparecimento e/ou agravamento da patologia acneica devido ao uso frequente e prolongado de máscaras. A verdade é que este tópico se tem tornado cada vez mais falado e diagnosticado nos últimos tempos e já se encontra efetivamente documentado na literatura médica atual, existindo cada vez mais estudos observacionais que demonstram a ocorrência desta associação e o seu impacto nos nossos dias. Este é, portanto, um problema real, que afeta uma grande percentagem de indivíduos, e que começa a ganhar um peso importante no grupo de doenças e problemas de saúde que chegam até nós, médicos, e que de alguma forma se podem associar à doença COVID-19 e respetivas condicionantes.

Então, o que é efetivamente a Maskne?

Em primeiro lugar, importa caracterizar a denominada “acne vulgar”. Esta é uma doença inflamatória da pele, que afeta a unidade pilossebácea, ou seja, atinge o sistema formado pelos folículos pilosos onde se originam os pêlos e as glândulas associadas secretoras de sebo (uma substância gordurosa com funções de lubrificação e impermeabilização da pele). A etiologia da patologia acneica é multifatorial, passando pela hiperprodução sebácea e “entupimento” dos folículos, pela colonização e proliferação bacteriana e ainda pela inflamação dérmica, as quais podem ser desencadeadas/ agravadas por estímulos internos (hormonais, endócrinos, hereditários) ou externos (tabagismo, exposição solar, dieta hiperglicémica, fármacos, entre outros). No caso da maskne, esta entidade caracteriza-se por ser uma acne de origem oclusiva ou mecânica, dado ocorrer por uma ação irritativa local, seguida de sobreinfeção bacteriana.

Como podemos então suspeitar de maskne?

Essa é uma pergunta importante. Na verdade, as manifestações dermatológicas desta patologia são idênticas na generalidade às da acne vulgar, nomeadamente, o aparecimento de lesões comedónicas (mais comumente chamadas de “pontos negros”), pápulas ou pústulas (“borbulha/espinha”), nódulos ou quistos, e cicatrizes. Mas a localização das lesões neste caso concreto é diferenciadora, dado que a zona mais afetada é o terço inferior da face – queixo, contorno mandibular e a região peri-oral – portanto, zonas em contacto direto e cobertas pelas máscaras, ao contrário da acne vulgar que afeta sobretudo a fronte.

O que está na origem da maskne?

Existem dois elementos importantes a ter em conta neste caso – o contacto direto das máscaras com a pele e o microclima cutâneo criado.

Por um lado, existe o atrito direto exercido pelo tecido sobre a pele, causando fricção mecânica e irritação que causam pequenas lesões, onde penetram impurezas do meio ambiente e proliferam bactérias. Ainda, constituindo a máscara uma barreira física justaposta ao rosto, ocorre a oclusão dos ductos pilossebáceos por pressão, favorecendo a hiperqueratinização dos folículos e o “entupimento” dos poros faciais.

Por outro lado, o uso de máscara por períodos prolongados de tempo afeta a flora da pele alterando-se as condições de humidade, pH e temperatura, e levando a uma disbiose microbiana. Cria-se, portanto, um ambiente quente e húmido, com suor à mistura, ideal para o aparecimento de lesões e a multiplicação de microrganismos, quer de bactérias (a mais comum na acne vulgar, a  Propionibacterium acnes), quer de fungos (malassezia e cândida), entre outros.

Abordaremos então os cuidados a ter para minimizar este problema de acne.

Em primeiro lugar, e começando pela pele, é fundamental adotar uma boa rotina de cuidados básicos de rosto, adequada a esta condição e reforçada ainda mais relativamente àqueles que devem ser os cuidados a ter diariamente. Tal implica iniciar por uma limpeza e tonificação com produtos suaves destinados a esse fim, seguidas de uma boa hidratação, não abrasiva, hipoalergénica, sem fragrâncias nem aditivos, e com pH adequado. Na acne, é altamente recomendável utilizar produtos seborreguladores e não comedogénicos, com propriedades antibacteriana e emoliente, sendo aplicados em camada protetora fina, de forma a manter uma barreira cutânea protetora, mas não muito espessa e portanto obstrutiva (a escolha certa são cremes com textura em gel e séruns faciais leves). Devem evitar-se produtos fortes, como ácidos ou retinóis durante o dia, dado o seu potencial irritante da pele. À noite, é imprescindível dedicar-se a uma eficaz limpeza de pele, removendo todas as impurezas acumuladas durante o dia, bem como a maquilhagem aplicada, a qual deve ser evitada sempre que possível com a utilização de máscaras, dado representar um fator potencial de obstrução dos poros e irritação da pele e que exige uma remoção e lavagem mais agressivas. Nunca poderá ser esquecido o protetor solar, diário, adequado para o seu tipo de pele, que deve ser reaplicado com regularidade.

Também é de extrema importância ter em conta a máscara que se utiliza.

São mais aconselhadas as máscaras de tecido suave, natural e respirável, como o algodão, especialmente na parte interior (sempre com a devida certificação de qualidade e segurança), pois assim a pele consegue “respirar” melhor e previne-se a formação do microclima propício para a secreção sebácea e proliferação bacteriana. Além disso, é essencial usar sempre uma máscara limpa – ou lavada adequadamente de acordo com as indicações, ou se descartável trocada frequentemente (geralmente recomenda-se a troca de máscaras descartáveis a cada 4-6 horas de uso, ou antes caso se molhe ou suje). Também, sempre sem prejuízo da segurança, quando estiver isolado e ao ar livre, é recomendado remover momentaneamente a máscara e deixar a pele livre. De ressalvar que a máscara deve ser usada bem ajustada ao rosto, não se devendo apertar, friccionar ou irritar a pele, bem como não se devendo tocar frequentemente com as mãos, evitando assim a acne mecânica e infeção microbiana.

Para quem já se encontra de momento com sintomas de maskne, este problema deve ser tratado, mesmo tendo de continuar a lidar com a irritação causada pela máscara. Existem vários produtos de dermocosmética que podem ser utilizados, todavia, em qualquer situação, a atitude mais indicada é consultar um especialista que possa diagnosticar corretamente e aconselhar e tratar da melhor forma. Para quem já tem acne pré-existente e se encontra em tratamentos, deve mantê-los de acordo com as indicações dos seus médicos, de modo a minimizar o risco de agravamento da doença e a ocorrência de sequelas, como são as cicatrizes.

Agora,
Mesmo em pleno Verão, e quebrando o mito de que o sol melhora as lesões acneicas, a verdade é que a exposição aos raios solares agrava o quadro de acne porque, se inicialmente resseca a pele, consequentemente é estimulada a produção de oleosidade, na tentativa de rehidratação. Também o calor e o suor típicos desta estação do ano favorecem a obstrução dos poros e a inflamação cutânea, com crescimento bacteriano e fúngico, para além das queimaduras recorrentes provocadas pela radiação que diminuem as células de defesa e, assim, favorecem as infeções cutâneas. Ainda o uso de fotoprotetores não adequados para peles oleosas, geralmente espessos e intensos, agrava o quadro de acne, devendo ser preferidos os produtos oil free. Um outro fator a ter em conta e que pode causar a intensificação da acne no verão, é a exposição à água de piscinas e do mar, que secam a pele, a lesam e a expõe a micróbios vários.

De referir ainda que não é só a patologia acneica que é agravada pelas máscaras. Outros problemas de pele, como rosácea, foliculite, urticária, dermatite seborreica, atópica ou de contacto, e/ou psoríase podem verificar um agravamento das suas condições ou até um diagnóstico primordial desencadeado pelas máscaras em conjunto com um fundo genético já para isso propício. A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) já alertou para esta temática, nomeadamente, para a exacerbação de dermatoses faciais pré-existentes (acne, rosácea ou dermatite) pelo uso prolongado da máscara, que tem vindo a crescer em incidência. Daí ser realmente importante procurar avaliação e acompanhamento médico especializado, de forma a obter um diagnóstico e tratamento corretos.

Concluindo, mesmo com a pele já a manifestar os efeitos adversos do uso diário da máscara, é essencial continuar a usá-la corretamente, sendo sem dúvida uma das abordagens essenciais para a proteção coletiva e individual. Não se deve prescindir do seu uso, devendo sim adotar as sugestões acima enumeradas, que têm como objetivo prevenir e amenizar os efeitos indesejáveis, controlando o surto da maskne. Fundamental não esquecer outros conselhos gerais, nomeadamente: não espremer as borbulhas, nem mexer nas lesões ou crostas, evitar tocar o rosto com as mãos, beber bastante água e seguir uma dieta equilibrada e, em especial, evitar o stress (um possível agravante da acne e que tem sido também uma constante nos nossos dias derivado da situação pandêmica). Proteja-se sempre contra a transmissão do vírus, bem como contra a evolução da acne.

Artigo de Joana Alves Ferreira

Médica na Unidade de Saúde Familiar de Baltar.

Médica Interna de Formação Específica em Medicina Geral e Familiar

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