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Se eu decidir escrever conforme o estilo ou processo de escrita de Gonçalo M. Tavares no seu recente livro, “Diário da Peste – o ano 2020”, quem me ler, pensará que não estarei bem ou, pior ainda, que decidi ser diferente, talvez afectada pela pandemia que nos tocou nos últimos tempos. Talvez isso ou uma quase natural crítica ética e política à sociedade actual cujos contornos se tornam mais evidentes nesta fractura de um século XXI partido em dois por um vírus. Mas não é isso! Falarei ou escreverei antes sobre o escritor Mário Cláudio, recentemente proposto pela SPA para o Nobel da Literatura.

Tenho, sem dúvida, um carinho muito especial por este escritor, uma das grandes figuras da Literatura Contemporânea. É um dos maiores ficcionistas portugueses actuais e, o seu livro mais recente, “Doze Mapas”, reúne toda a sua poesia de 50 anos, isto é, de 1969 a 2019. Trata-se de um resgate ou revisitação e, melhor do que um regresso à poesia, é o registo de um lugar de onde, afinal, o autor nunca saiu… Diz o autor que “Ninguém me reconhece como poeta, sou um poeta envergonhado… mas nunca deixei de ser poeta…”.Eu concordo! Porque entendo e defendo que a sua melhor poesia está na prosa que publica. De facto, tanto as formas poéticas que adoptou ao longo dos anos, como nos seus contos, romances e crónicas, a sua poesia está plasmada nessa prosa acutilante, furiosa, misteriosa, quase barroca. Afinal, como também diz o autor do prefácio do livro em causa, “a poesia é sempre pintura que fala…”.

Mário Cláudio teve o cuidado de referir que este não foi um livro programado e que, adquirida a tranquilidade pela obra feita, espera continuar a escrever poesia já que diz encontrar aí as reflexões que, na altura, está a escrever na prosa.

Gosto do escritor Mário Cláudio mesmo que ache que o seu texto deva ser lido pausadamente e não de um só fôlego. Não é fácil!

Recordo com saudade o dia em que, há muitos anos, esteve em Paços para falar essencialmente de Camilo. Contou casos curiosos, explicou situações, lembrou textos e pormenores de Camilo que me ensinaram muito. Penso mesmo que passei a admirar o escritor de Seide a partir desse dia… Foi franco, muito directo e muito oportuno no modo de transmitir… Gosto de gente assim!

O mundo actual está cheio de elogios postiços, destituídos de conhecimentos profundos e honestos. Em contrapartida, o elogio sincero dura muitos anos e, é nesse sentido que hoje, passado tanto tempo, ainda é oportuno lembrar um dos primeiros grandes escritores a passar por aqui… Deixou rasto, deixou marcas e ainda é tempo, hoje, para recordar o momento que então se viveu! Quando é bom, não se esquece!

Nunca fui capaz de deixar de estar atenta à obra de Mário Cláudio e, seguindo-o, aprendi que alguns dos seus poemas tiveram a ver com os afectos e com a morte, no fundo, com a vida e a morte…

Tantos anos depois da sua visita a Paços de Ferreira, recordo o homem simpático que deixou ensinamentos importantes para avida de quem gosta de aprender. E não é por acaso que a SPA considera que a obra de Mário Cláudio, a ficção, o teatro, a poesia, é na sua riqueza e diversidade, uma das mais marcantes da Literatura portuguesa actual… E, volto a recordar, há muito tempo, também passou por aqui…

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