Cristiana Lopes, enfermeira

A região do Vale do Sousa foi, no início da pandemia, a mais fustigada por este vírus desconhecido. Foi nela que se registaram os primeiros casos do país e, ao longo destes 12 meses, os serviços de saúde estiveram em risco de rutura, não sendo exceção o Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa (CHTS).

Ao IMEDIATO, Cristiana Lopes, enfermeira no centro hospitalar, fez uma retrospetiva dos últimos 12 meses e das dificuldades enfrentadas diariamente pelos profissionais de saúde, que estão na linha da frente do combate à pandemia.

Cristiana Lopes: “O medo estava espelhado nos olhos dos doentes e de toda a equipa”

“Quando me propuseram esta entrevista confesso que sentimentos ambivalentes assomaram na minha mente. Se por um lado é um privilégio dar este testemunho, por outro afloraram emoções que por mecanismo de defesa foram recalcados. Vi de perto a capacidade que esta doença silenciosa tem de afectar o corpo e a mente do ser humano, de fazer cair o mais forte e de semear a dúvida ao mais sábio.

Enquanto na primeira vaga a principal carência que sentimos foi a falta de EPIs, particularmente máscaras. Na segunda, foi a falta de recursos humanos. O CHTS reorganizou serviços, fez novas contratações, muniu-se de equipamentos para o tratamento mais direcionado e celebrou contratos com entidades privadas para transferir doentes já estabilizados. De forma a dar uma resposta mais eficiente face ao aumento exponencial de doentes que recorreram á instituição.

O medo estava espelhado nos olhos dos doentes e de toda a equipa. Senti o medo de ficar infectada, de transmitir a outras pessoas e de não conseguir prestar cuidados de excelência por escassez de tempo face ao volume de trabalho.

A adaptação a uma nova rotina foi difícil. Trabalhar com todos os EPIs é “atroz”. Ao fim de meia hora sentimos a farda molhada, os nossos movimentos ficam lentificados e até o raciocínio parece toldado. A única vantagem é a segurança de um abraço partilhado. Não só com os colegas, mas também com os doentes. Lembro-me com carinho de uma doente que se abraçava a mim durante 5 minutos. Nesse momento eu era importante para alguém, dava e recebia felicidade. Em contra partida, muitas lágrimas foram derramadas. Observar alguém a despedir-se do seu ente querido equipado com touca, máscara, bata multirresistente e luvas é anti-natura e marca-nos para a vida. Sempre ouvimos falar em dignidade na morte, este ano esse direito foi roubado.

Apesar de todas estas contradições, nunca deixamos de dar amor, carinho e dedicação aos nossos doentes. Nunca faltou companheirismo, trabalho de equipa e bom humor, que nos permitiu suportar o peso da responsabilidade e os momentos difíceis.

Depois de um turno de 12h30 de trabalho abraço a minha família, que com muita sorte nunca infetei. Às vezes consigo “desligar a ficha”, outras vezes não. Há sempre um olhar que me fica na mente, um sentimento de impotência que me assalta e a sensação de que poderia fazer mais. Desejo profundamente que haja um desconfinamento responsável e que a curto prazo aquele jantar de família ou de amigos coroado de abraços e beijos faça novamente parte das nossas vidas”.

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