Uma das mais emblemáticas associações de Freamunde assinala hoje, 16 de outubro, o seu 100.º aniversário. Fundado em 1926 por um grupo de 12 associados, o Clube Recreativo Freamundense nasceu para ser um espaço de convívio, mas também de reflexão sobre os destinos da terra. Cem anos depois, continua a ser um símbolo da identidade freamundense.
Ao longo de um século de existência, o Clube Recreativo Freamundense atravessou diferentes épocas e gerações, mantendo-se fiel ao espírito que esteve na origem da sua criação: reunir pessoas em torno do debate de ideias, do convívio e do amor por Freamunde.
O clube teve como primeiro presidente Ernesto Gomes Taipa e soma já 36 presidentes na sua história. Atualmente é liderado por José Moura, que assumiu funções em 2024 e que tem uma ligação familiar particularmente forte à instituição. O avô integrou o grupo fundador e o pai também fez parte da direção. “É um orgulho muito grande o meu avô ter sido fundador e eu ser o presidente nos 100 anos do clube”, afirma.
Hoje, o Clube Recreativo Freamundense conta com cerca de 90 associados, provenientes não só de Freamunde mas também de outras freguesias e concelhos. As quotas, que eram de 20 escudos aquando da fundação, fixam-se atualmente nos 120 euros anuais.
Um espaço onde se discutia o futuro da terra
Mais do que um local para jogos de cartas ou momentos recreativos, o clube foi durante décadas um verdadeiro centro de pensamento e ação cívica.
Segundo José Moura, muitos dos projetos e reivindicações que marcaram a história local tiveram origem entre aquelas paredes. “Perceberam que aqui não só servia para se jogar às cartas e que se podiam fazer coisas de muito valor. Discutiam-se assuntos sobre Freamunde e fez-se tudo em troca de nada, pelo amor a Freamunde”, refere.
Recorda mesmo que associados do clube se deslocaram a Lisboa para reivindicar melhorias para a freguesia, conseguindo trazer vários candeeiros para iluminação pública.
Foi também no clube que se discutiu a possibilidade de Freamunde ascender a concelho, uma proposta que chegou à Assembleia da República, embora sem sucesso.
Ao longo dos anos, a coletividade serviu ainda de ponto de partida para outras instituições marcantes da cidade. Entre elas, a Corporação de Bombeiros Voluntários de Freamunde. “Nasceram tantas coisas aqui. Tínhamos gente que pensava e que queria ter primeiro”, salienta José Moura, recordando igualmente campanhas para angariação de fundos destinadas à compra de uma nova grinalda para Nossa Senhora e os primeiros investimentos realizados no antigo coreto da freguesia.
“Gente com qualidade e muito valor”
O olhar sobre o passado é reforçado por Vitorino Ribeiro, o sócio vivo mais antigo do clube e uma das vozes mais respeitadas da instituição.
Nas suas memórias, o Clube Recreativo Freamundense foi sempre um ponto de encontro de pessoas influentes, empreendedoras e profundamente ligadas à terra. “Em momentos de alegria manifestávamos em conjunto essa alegria; quando havia problemas, era no clube que se discutiam os problemas e se conseguiam arranjar soluções”, recorda.
Para Vitorino Ribeiro, o clube distinguiu-se pela capacidade de reunir “gente com qualidade e muito valor”. “Eram pessoas que estavam em tudo, que diziam que sim a todos os desafios, pessoas com muita dinâmica, empreendedoras, pessoas que gostavam de Freamunde”, sublinha.
Uma das características que mais destaca é o ambiente de respeito que sempre prevaleceu entre os associados. “Não há cores políticas, clubes de futebol ou religião. Aqui há respeito. Discutem-se as coisas, mas com respeito.”
Entre as particularidades históricas da coletividade está o facto de ter sido durante décadas um clube exclusivamente masculino. A admissão de novos associados obedecia a um processo singular: depois da análise pela direção, os candidatos eram submetidos à decisão dos sócios através do tradicional sistema do “feijão branco ou feijão preto”.
O clube guardou também algumas marcas de modernidade para a época. Terá sido um dos primeiros espaços públicos da cidade a dispor de rádio e possuía um piano que podia ser utilizado pelos associados.
Olhar para o futuro
Apesar das mudanças sociais e do impacto da pandemia na dinâmica diária da instituição, a direção acredita que o clube continua a ter um papel relevante na vida da comunidade. “O covid mudou um pouco a dinâmica, mas mantêm-se as conversas e o são convívio”, admite José Moura.
A sustentabilidade financeira da coletividade assenta sobretudo nas quotas dos associados, o que obriga a uma gestão rigorosa. Mas a principal preocupação passa por assegurar a renovação geracional. “Tem que chegar a esta nova geração. Gente jovem que nos possa vir ensinar o que sabe, novas ideias. E acho que as celebrações do centenário podem motivar mais gente.”
Também Vitorino Ribeiro olha para o futuro com otimismo. “Olhando para os 100 anos do clube, continuo a orgulhar-me do clube. É uma coletividade extraordinária, que passou por alguns momentos menos bons, que me levaram a descrer, mas agora estou novamente confiante e com disposição para me continuar a dedicar a ele.”
Celebrações do centenário
As comemorações oficiais do centenário realizam-se amanhã, com um programa que pretende homenagear o passado e celebrar o presente da instituição.
O momento mais aguardado será a apresentação do Hino Oficial do Clube Recreativo Freamundense, composto pelo maestro Vítor Resende, da Banda Musical de Freamunde.
O programa contempla ainda uma homenagem a sócios, dirigentes e personalidades marcantes da história do clube, o descerramento dos quadros dos antigos presidentes, o lançamento do Livro do Centenário e um jantar-convívio que encerrará as celebrações.
Um século depois da sua fundação, o Clube Recreativo Freamundense continua a afirmar-se como um dos mais importantes símbolos da identidade, do associativismo e da memória coletiva de Freamunde.

