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"Quando hoje se diz que alguém “deixou o caminho aberto”, talvez valha a pena lembrar que, antes disso, houve um caminho que teve de ser construído", escreve Ricardo Pereira
ISCE Douro 2026

Li a notícia no IMEDIATO, “Concelhias socialistas foram a votos e região conta com dois novos protagonistas” (23 de junho), onde se diz que, em Paços de Ferreira, “Humberto Brito (…) deixou o caminho aberto para Paulo Ferreira”, e, olhando os campos na Várzea de Eiriz, fiquei a pensar.

Cada coisa tem o seu tempo, e há sempre um antes. E é esse antes que, bem vistas as coisas, dá sentido ao presente.

Ora, se olharmos para o princípio, vemos como o ciclo autárquico de 2013 não surgiu como uma evidência natural, nem como o resultado de um percurso individual de Humberto Brito. Foi um momento de decisão política dentro do próprio Partido Socialista local, num tempo em que a concelhia tinha uma liderança concreta e assumia a responsabilidade de escolher um rumo. Foi aí que se construíram as condições que tornaram possível uma vitória que viria a pôr fim a décadas de governação de outro quadrante político.

Esse processo não foi indiferente ao contexto da época. Pelo contrário, implicou a capacidade de alargar o espaço político, de integrar novos protagonistas e de fazer escolhas que, na altura, não eram evidentes nem consensuais. É fácil, com o passar do tempo, olhar para os resultados como inevitáveis. Mas quem viveu esses momentos sabe que nada tinha, então, esse carácter de evidência e de inevitabilidade.

Vivíamos o tempo da contestação à AGS e ao preço da água. O movimento de 6 de novembro, liderado por Humberto Brito, afirmava-se como uma força emergente, com expressão social que atravessava os partidos. O próprio Humberto Brito era, então, militante do PSD. Foi neste contexto que o PS de Paços de Ferreira, liderado por Paulo Ferreira, num processo exigente e controverso, decidiu alargar o seu espaço político e acabou por funcionar como um verdadeiro cavalo de Troia no plano municipal. Dessa articulação resultou a candidatura de Humberto Brito à Câmara Municipal pelo PS.

Sem esse momento fundador, dificilmente certos percursos teriam existido como vieram a existir. Foi com Humberto Brito que o PS ganhou a Câmara. Mas foi no quadro do PS que Humberto Brito chegou à presidência da Câmara e, mais tarde, à Assembleia da República.

Por isso, quando hoje se diz que alguém “deixou o caminho aberto”, talvez valha a pena lembrar que, antes disso, houve um caminho que teve de ser construído, e que essa construção aconteceu num tempo, num contexto e sob uma determinada liderança: Paulo Ferreira.

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