Às vezes, dou comigo a pensar no porquê de vermos o mundo como o vemos e não como seria suposto vê-lo, face à realidade do dia-a-dia. O que percebemos é quase sempre enviesado e condicionado pelos media.
Sem que déssemos conta, instalou-se uma visão maniqueísta, de culto, de deuses e mitos, que ostraciza todo e qualquer um que conteste essa idolatria.
Presente no quotidiano, o culto das novas divindades é especialmente notório no futebol e em concreto com a selecção nacional – que duvido o seja – de futebol.
Hoje, no final do jogo da selecção, já com meia perna fora da minha caverna, dei conta da tvi entrevistar o Nuno Mendes, o marcador do segundo golo. O Nuno foi simples e directo e, como todas as pessoas simples, reconheceu que o mérito do golo resultou do treino da equipa e que, assim como hoje lhe calhou a ele, amanhã podia calhar a outro. Gostei, gosto de pessoas assim, simples, que sabem ocupar o seu lugar e que não estorvam ninguém.
Já com as duas pernas fora da caverna, ouvi outro alguém dizer na tv:
– Eu ia marcar, mas lembrei-me e disse para o Nuno, vamos enganar o guarda-redes? – Achei curioso que o Nuno Mendes, entrevistado minutos antes, se tivesse esquecido desta importantíssima “orientação” do CR7, mas, pronto, podia ter-se esquecido.
Poder podia, mas acho mais provável que tenha sido o ego estelar do CR7 a querer avocar a si o mérito do segundo golo, ou, pelo menos, parte dele.
Na euforia da vitória, até nos esquecemos do incomensurável ego do CR7. Alternando estados delirantes com alucinados, esquecemo-nos – alguns até acham muito natural – que a nossa sebastiânica vaca sagrada foi, ainda não há muito tempo, adular o pedófilo-mor deste mundo, o criminoso genocida, o imperador da morte, bajulando-o e legitimando-o com a sua “visitinha”.
Ou seja, no meu entendimento quando endeusamos o CR7, veneramos alguém sem ética, nem valores, que na essência não é mais do que uma construção mediática.
A manipulação das consciências com a nova mitologia é de tal forma insidiosa que pretende mesmo subverter os factos e os méritos. Dou como exemplo o execrável jornal “Observador”, que há pouco anunciava em parangonas que Ronaldo ultrapassou o Eusébio ao completar 10 golos em mundiais de futebol. Do que aquele refluxo da latrina se esqueceu foi de mencionar foi que os 9 golos de Eusébio foram todos marcados em 6 jogos do mundial de 1966, ao passo que os golos do CR7 foram conseguidos em 24 jogos e 6 campeonatos do mundo de futebol!
Pois é, já o diz o ditado, qualquer burro come a palha, o que é preciso é saber dar-lha. Para mim, é mais do que evidente que andamos todos a comer muita palha!



