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O mundo não tolera os preguiçosos e continuamos presos à ideia de que o sucesso está assente na nossa disponibilidade para o trabalho. Será assim?

Esta ideia parte da proporcionalidade direta entre a nossa entrega ao trabalho e o consequente retorno do dinheiro. Portanto, com mais trabalho consequentemente teremos mais dinheiro. Pena é que esta receita muitas vezes nos leva para a roda do hamster, na qual imprimimos toda a nossa energia sem sairmos do mesmo sítio. E convenhamos, o dinheiro não é necessariamente sucesso e o trabalho por si só, não é realização.

Mas não nos equivoquemos, o dinheiro é importante e o ócio inconsequente é defeito. Poderíamos discutir sobre quantidade de dinheiro que nos seria suficiente e até prioridades na sua utilização, mas deixo isso para que cada um defina os seus objetivos e determine a sua ambição. E isso também determinará o foco e o esforço que cada um está disponível para dedicar ao trabalho.
Quero voltar ao “será assim?” do primeiro parágrafo.

Uma vez escutei que quando se trabalha muito não se tem tempo de ganhar dinheiro. Parece-me verdade que quando entramos numa determinada rotina que nos absorbe, perdemos a capacidade de identificar oportunidades, que apenas conseguiríamos detetar se nos desligássemos das obrigações imediatas. É nos momentos em que paramos e nos permitimos pensar menos na operação e mais no resultado pretendido, que conseguimos identificar outros caminhos.

E aqui que começa a minha apologia do preguiçoso. Não nos culpabilizemos por querer o sossego e por querer dar folga o corpo. É absolutamente válido querer despachar o trabalho e ceder aos caprichos do nosso corpo, que nos pede relaxamento e atividades prazerosas.

Desconfio daqueles que dizem que gostam muito de trabalhar e que estão sempre disponíveis para mais e mais horas de labuta. É que mesmo quando o trabalho nos realiza e dá prazer, não me parece que o trabalho seja melhor que receber uma massagem numa praia paradisíaca enquanto bebemos um sumo natural acabado de fazer.

Sem ter efetuado qualquer pesquisa, em primeiro porque sou preguiçoso e em segundo porque isto não pretende ser um estudo muito objetivo, vou prosseguir nesta dissertação. Arrisco a dizer que não terá sido um trabalhador incansável que inventou a máquina de costura, terá sido certamente um consórcio de malandros que queria ver reduzida a carga de trabalho, poupar os dedos da asfixia dos dedais e a vista da laboriosa atividade de coser pedaços de tecido com agulhas à mão; seguramente que o pedreiro que pensou em abrir uns buracos na pedra e colocar dinamite para a desfazer num instante mágico, era alguém que estava com as mãos estafadas do uso da picareta; as primeiras alfaias agrícolas foram certamente pensadas por um agricultor que estava farto de torrar ao sol, cujas as mãos ruborizadas pelos calos doíam sem cessar e nunca via o estafante trabalho findar; provavelmente o tipo que percebeu que o alcatrão seria uma boa matéria alternativa para construir estradas estava fatigado e aborrecido pela atividade rotineira de encaixar paralelepípedos de pedra.

Dir-me-ão que estas ideias também poderiam advir de ambição, da ousadia de empreendedores que quiseram encontrar novas formas para rentabilizar as ações e consequentemente ganhar dinheiro. Talvez seja verdade, mas prefiro esta ideia romântica do estímulo da preguiça, porque a preguiça é honesta com o corpo e com a alma, enquanto a ambição tende a estragar o corpo e a denegrir a alma.
A preguiça é um bom estimulante cerebral, não tenho dúvidas. Alguém que almeja dar descanso ao corpo irá encontrar formas de o libertar com criatividade. Quando fazemos as coisas sempre da mesma maneira o mais certo é que tenhamos sempre os mesmos resultados.

Para terminar o texto deixo uma daquelas frases motivacionais dignas de um qualquer “coach” moderno numa das suas estimulantes palestras incentivadoras, uma daquelas frases para as quais já não temos paciência, mas que encaixa na resolução deste texto:
“Queres viver para trabalhar ou trabalhar para viver?”.

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