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“Você não se enxerga?”;

Nesta pergunta muito utilizada pelos brasileiros cabe um infinito rol de alertas para determinados comportamentos. Nela detetamos a flagrante evidência de que a nossa autoavaliação não coincide com aquilo que os outros observam ao redor. O “Você não se enxerga?” é uma expressão que pode abarcar chamadas de atenção sérias, relativas ao respeito pelo outro e sobre o nosso compromisso com o todo, ou então cabem observações ligeiras revestidas de humor. Para as mais sérias, no nosso português de Portugal, caberia um equivalente “você não tem noção?”, mas esta pergunta não me entusiasma tanto, por ter uma carga pesada e perde aquele carater mais divertido que o verbo enxergar propicia.

Não poucas vezes, esta pequena frase ecoa no meu cérebro quando me deparo com atitudes que me parecem desfasadas de razoabilidade, de critério, no fundo quando observamos uma flagrante desadequação. E divertem-me em especial as minhas perceções mais frívolas, que não comprometam os valores humanos fundamentais. Aquelas pequenas manifestações de desarmonia que observamos, que nos arrancam um sorriso malfazejo e ficamos com um apetite sôfrego de tocar no ombro do visado e dizer “então você não se enxerga?…”; normalmente algum aspeto que ele do alto da sua narcísica atitude não percebe. Mas não ouso dizê-lo, claro!

Óbvio, que este meu atrevimento em apontar os outros pode indiciar um excesso de arrogância, típico de quem se acha dentro da ortodoxia e recusa a diferença e o descomplexo. E isto é de facto perigoso, esta intenção de normalizar e de rejeitar a estranheza, que normalmente decorre de inseguranças ou faltas de confiança.

Mas não quero entrar em assuntos demasiados sérios, deixo isso para quando decidir discorrer sobre o “você não tem noção?”. Hoje quero dar-vos conta que esta pulsão malandra em alertar não é exclusiva para os outros, também me apetece por vezes tocar no meu próprio ombro e dizer “Então César, você não se enxerga?”.

E confesso-vos que na generalidade das vezes esta voracidade em apontar-me decorre da minha desadequada perceção do meu corpo, que noto otimista em relação à minha idade, confiante na minha motricidade e na minha aparência. Estando eu literalmente incorporado no meu corpo, passo a redundância, observo e sinto o meu corpo de uma forma desfasada daqueles que me observam plantados no alto de um guindaste, ou seja, de fora, de um ângulo muito mais vantajoso.

Sinto-me alto, bem constituído, com uma aparência jovial e quando corro ou pratico algum desporto fico com a sensação que estou com uma postura adequada, que possuo uma técnica assinalável, que sou muito harmonioso nos meus movimentos. A roupa que visto parece-me sempre no tamanho certo, com uma cor adequada, sem destoar. Por muito que me doa e que os meus movimentos sejam lentos, fico com a convicção que estou a impressionar e sinto-me impelido a verbalizar esta minha vaidade.

E é aqui que tudo se desmorona; as fotografias que nos registam a cada momento, captam “frames” sem a nossa devida atenção e por não respeitarem melhor ângulo expõem algumas evidencias de que a pretensa jovialidade nos abandonou sem avisar. Os vídeos captados pelos “smarphones” são abusivamente fáceis de obter e mostram-me o quão desajeitado sou aos olhos de quem está do lado de fora. E até a minha própria sombra projetada no solo expõe sem contemplações a dureza dos meus rins, não estando em sintonia com a minha fantasiada agilidade. Para não falar de espelhos, ah “raisparta” os espelhos!!

Então é aí que eu desço do pedestal que ousei ocupar por achar que estou a envelhecer com grande categoria e digo baixinho, “Oh César, vê lá se te enxergas!”.

 

 

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