Modelo Opiniao

Há uma sensação que começa a instalar-se em algumas conversas em Paços de Ferreira: a de que alguma coisa mudou. Fala-se de episódios de violência, de tráfico de droga, de desacatos. Circulam relatos, fotografias e vídeos. E, como acontece sempre que o medo entra na discussão pública, depressa aparecem aqueles que procuram transformá-lo em arma política.

Comecemos pelo princípio: não devemos fingir que está tudo bem.

Qualquer episódio de violência deve preocupar-nos. O tráfico de droga não pode ser tolerado nem normalizado. Se existem focos de criminalidade, devem ser identificados e combatidos. E se as forças de segurança precisam de mais efetivos, melhores condições ou mais meios, então devemos exigi-los. Segurança não é uma preocupação de esquerda ou de direita. É uma das condições fundamentais para vivermos em liberdade.

Mas entre reconhecer um problema e decretar que Paços de Ferreira se tornou uma espécie de território sem lei vai uma distância enorme.

É nessa distância que o CHEGA, e agora o PSD/CDS, gosta de fazer política.

O método já é conhecido: pegar num crime, amplificá-lo; pegar noutro, juntá-lo ao primeiro; repetir as imagens, aumentar o tom e criar a sensação de que ninguém está seguro. Se for possível associar o episódio a estrangeiros ou a uma determinada comunidade, melhor ainda para a narrativa. O medo deixa então de ser uma consequência do crime e passa a ser um instrumento político.

Não podemos aceitar esta forma de fazer política.

Se a criminalidade aumentou em Paços de Ferreira, queremos conhecer os números. Que crimes aumentaram? Em que freguesias? Em que proporção? Comparativamente com que período? É com dados das autoridades, e não com publicações virais no Facebook, que se avalia a segurança de um concelho.

Isto não significa relativizar seja o que for. Pelo contrário. Significa levar o problema suficientemente a sério para não o reduzir a propaganda.

Precisamos de policiamento de proximidade, investigação eficaz sobre o tráfico de droga, prevenção da delinquência juvenil, intervenção social e uma relação permanente entre autarquias, escolas, instituições e forças de segurança. E precisamos de autoridade: quem pratica um crime deve ser investigado e responsabilizado.

Mas precisamos também de dizer uma coisa que, em tempos de populismo, parece quase revolucionária: um criminoso representa-se a si próprio. Não representa uma nacionalidade, uma etnia ou uma comunidade.

Paços de Ferreira não precisa que lhe digam que não existe problema algum. Mas também não precisa de políticos a percorrer as redes sociais com um megafone, transformando cada ocorrência na prova de um concelho à beira do caos.

Precisamos de segurança, sim.

De medo, já temos quem tente tratar.

 

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