Investigação realizada no Estabelecimento Prisional de Paços de Ferreira alerta para o impacto psicológico e físico da falta de cuidados estruturados. Cerca de 68% dos reclusos sofrem de cáries ativas.
Um novo estudo desenvolvido por investigadores do Instituto Universitário de Ciências da Saúde (CESPU) expõe a precariedade da saúde oral no sistema prisional português. A análise, centrada em reclusos do Estabelecimento Prisional de Paços de Ferreira, revela que a perda dentária e as patologias orais atingem níveis críticos, afetando gravemente a qualidade de vida e o bem-estar psicológico desta população.
Os Números da Crise Oral
A investigação, publicada no prestigiado European Journal of Dentistry, acompanhou 103 reclusos com idades compreendidas entre os 18 e os 70 anos. Os dados recolhidos entre outubro de 2023 e junho de 2024 traçam um cenário preocupante:
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Cáries Dentárias: 68% da amostra apresenta cáries ativas.
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Perda Dentária: Em média, cada recluso perdeu 13 dentes, o que representa cerca de metade da dentição total de um adulto.
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Dor e Desconforto: 24,3% dos participantes reportaram dor física constante, enquanto quase um terço (29,6%) admitiu sentir desconforto psicológico devido ao estado da sua boca.
Impacto Além da Dor Física
Os investigadores das unidades UNIPRO, UCIBIO-1H-TOXRUN e i4HB sublinham que o problema transcende a dimensão clínica. A saúde oral deficitária funciona como um entrave à reinserção e ao equilíbrio emocional, gerando estigma e isolamento social dentro e fora do contexto prisional.
“Estes indicadores reforçam a importância de integrar a saúde oral nas políticas de saúde em meio prisional”, defendem os autores do estudo.
Apelo a Medidas Preventivas
Perante a vulnerabilidade detetada, o corpo científico da CESPU defende a implementação urgente de programas estruturados de promoção da saúde oral e medidas preventivas adaptadas à realidade das prisões. O objetivo é evitar complicações sistémicas futuras e reduzir a sobrecarga dos serviços de saúde através de uma intervenção precoce e regular.
Este estudo coloca novamente o foco na necessidade de garantir o direito constitucional à saúde em populações marginalizadas, destacando que a reabilitação de um indivíduo passa, obrigatoriamente, pela preservação da sua dignidade física e funcional.


