casa do gaiato

Município assinalou a efeméride com o descerrar de uma peça evocativa na Casa do Gaiato. Esta foi a primeira homenagem pública desde a declaração do fundador da Obra da Rua como Venerável, em 2019.

A Câmara Municipal de Penafiel assinalou os 70 anos da morte do Padre Américo Monteiro de Aguiar com a colocação de uma peça evocativa à entrada da Casa do Gaiato, em Paço de Sousa. O momento revestiu-se de especial simbolismo, tratando-se da primeira homenagem pública promovida pelo município desde que o sacerdote foi declarado Venerável pela Santa Sé, em 2019.

Com este ato, o concelho onde nasceu o fundador da Obra da Rua procurou perpetuar a memória de uma das figuras mais marcantes da ação social do século XX em Portugal, recordando o homem que fez da rua a sua missão e dos abandonados a sua causa.

Um legado que desafia o presente

Durante a cerimónia, o pároco Júlio Pereira, atual responsável pela Casa do Gaiato de Paço de Sousa — local onde o Padre Américo se encontra sepultado —, destacou a perenidade do seu trabalho e a “influência positiva” que o “Pai Américo” continua a exercer na sociedade atual.

Atualmente, a Obra da Rua mantém em funcionamento quatro casas em Portugal e duas em Angola. Segundo o responsável, a instituição trabalha “além dos seus limites” e tem perspetivas de fundar novos espaços para responder às necessidades crescentes. No entanto, Júlio Pereira aproveitou a ocasião para lamentar os entraves burocráticos e legislativos que limitam a capacidade de acolhimento das instituições.

“Às vezes a lei está um bocadinho fora da realidade, ou é demasiado rígida, e isso dificulta esse trabalho e essa ajuda”, alertou o pároco, sublinhando que a missão da instituição vai muito além do apoio material: “Viver é muito mais do que ter uma casa, é ter uma família. Não basta a parte material, é preciso também a parte espiritual.”

A força desse vínculo espiritual foi visível na forte adesão à cerimónia, que juntou tanto os gaiatos mais jovens como antigos utentes que ali cresceram e que mantêm uma ligação umbilical à figura e aos valores do fundador.

Da caridade à capacitação social

O presidente da Câmara Municipal de Penafiel, Pedro Cepeda, corroborou o impacto histórico do homenageado, classificando-o como “uma figura incontornável da história de Penafiel e uma das figuras mais importantes da ação social em Portugal”.

O autarca recordou as mais de 3500 “casas dos pobres” construídas em território nacional e em Angola, destacando o pioneirismo do sacerdote na defesa do direito à habitação digna para os mais desfavorecidos. Mais do que o património físico, Pedro Cepeda enalteceu a visão pedagógica e social do clérigo. “O Padre Américo não fazia caridade, fazia uma lógica de capacitação das pessoas para poderem vingar na vida e serem rapazes que eram bons profissionais, tinham bons valores e bom coração”, afirmou o edil, desafiando a comunidade a inspirar-se neste “património imaterial” para apoiar os que enfrentam maiores dificuldades.

Uma vida dedicada aos mais frágeis

Nascido em Penafiel em 1887, o Padre Américo faleceu em 1956, vítima de um acidente de viação. A sua morte precoce gerou, à data, uma profunda comoção popular, expressa nas milhares de pessoas que acompanharam o cortejo fúnebre entre o Porto e Penafiel.

Ao longo da sua vida, destacou-se pela dedicação intransigente às crianças abandonadas, aos pobres e aos doentes. Além da Casa do Gaiato e da Obra da Rua, fundou instituições de referência como o Património dos Pobres e O Calvário, deixando um legado de solidariedade que, sete décadas após a sua partida, permanece vivo no coração da comunidade local e do país.

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