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«(…) se o Logos de todo o ser, o ser que a tudo sustenta e envolve, é consciência, liberdade e amor, conclui-se por si mesmo que o supremo do mundo não é a necessidade cósmica, mas a liberdade.» Neste pequeno excerto da obra “Introdução ao Cristianismo” daquele que veio a ser o Papa emérito, Bento XVI, podemos ter uma visão do interesse da religião cristã,   que Ratzinger  defendia, nesta época e no futuro.

Eminente teólogo e filósofo, Bento XVI, considerou que a religião cristã, na sua génese, não foi um sucedâneo de outras religiões, mas, uma completamente nova, alicerçada sobre uma base filosófica extrordináriamente sólida. Se observarmos com cuidado e conhecimento, mesmo quando se associa esta ou aquela cerimónia cristã com outras mais ancestrais, descortinamos que tal se deve a uma apropriação ontológica e dificilmente a uma evolução de outros credos. Apoiada na filosofia antiga, a religião cristã criou um padrão ético e moral, que, para o bem e para o mal, moldou a sociedade ocidental. Por muito que se tente descartar o cristianismo, a verdade é que dificilmente conseguimos escapar dessa herança filosófica que, paradoxalmente, pelo menos para os não crentes, continua a formar a identidade do ocidente: desdenha-se a religião, aclama-se a ética baseada no primado da razão – aquela, que no fim, assenta em Sócrates, Platão, Aristóteles, etc, ou seja, o alicerce fundacional da Igreja.

Precisamente, neste primado da razão, é que reside o brilhantismo do recém-falecido Papa Emérito: o conceito de Logos (apelo à razão que se baseia na lógica ou razão) que reúne o ontológico ao epistemológico em vez da razão como mera racionalização do mundo. Parece não haver dúvida na necessidade que o ser humano tem em acreditar em algo, de alimentar o espírito. A racionalização absoluta, apanágio de muitos, não passa de um artifício retórico, o qual não é sustentável em determinados momentos do viver de cada indivíduo. Acresce, que se tomarmos a ética como a reflexão sobre os princípios da melhor convivência, então a proposta, de Ratzinger,  de convite à fé como forma de alimento espiritual e de libertação das amarras que a contemporaneidade, com a sua velocidade crescente, nos impõe, torna-se, não só, atual, como, absolutamente, viável.

É comum, nos tempos que correm, as pessoas agarrarem-se a todo tipo de experiências destinadas a apresentar-lhes o transcendente de que elas parecem necessitar. Na maioria das vezes tudo não passa de uma ilusão, de expedientes mais ou menos inspiracionais que nada acrescentam e, não raras vezes, aumentam o problema de base. Tão pouco, recorrer a outras religiões, com as quais apenas tomamos conhecimento a partir de determinado momento do viver, parece ser o mais indicado: pretere-se aquela que corresponde ao ambiente em que se foi educado por outra que parecesse mais “cool”, mais na moda,  sem se ter um conhecimento profundo sobre o que fornece a primeira e a mentalidade, bastante diversa, que está por trás da segunda.

A fé, como processo transcendente, não contraria a razão (no sentido mais comum do termo), complementa-a. Se é na religião católica, é uma escolha que cabe a cada um. No entanto, pelos motivos, sucintamente apontados, o convite de Bento XVI à fé católica, não pode ser descartado, já que, conforme sublinhou, o anseio ético que se nota na atualidade, não consegue ser preenchido pelo primado da razão, abrindo a possibilidade à construção de novos paradigmas morais a partir de uma reflexão permanente sobre os valores do cristianismo impressos numa Igreja que não pode afastar-se do mundo. Este é o legado que nos deixou Ratzinger, o qual deve ser valorizado e debatido no sentido do acrescentar.

 

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