entrevista
Fotografia: Filipe Ferreira

Raquel Calção, é uma mulher de 29 anos, de Paços de Ferreira, que teve o sonho de ser atriz, de fazer teatro, mas que viu este sonho ser interrompido devido a um problema de saúde.

Recuperada, voltou a correr atrás do sonho. Arranjou um emprego numa empresa de mobiliário e começou a correr atrás do sonho e hoje é uma figura que, com alguma regularidade, nos entra pela casa dentro, em vários anúncios publicitários.

A sua história de vida é de resiliência e Raquel Calção quer inspirar aqueles a quem a vida coloca perante adversidades e passar-lhes uma mensagem. 

O caminho das artes era o que lhe fazia sonhar em termos de futuro?

Certo. Eu não estava muito dentro da área, mas tinha bastante curiosidade. Conheci o Ballet Teatro do Porto através de uma amiga, fiz as provas e entrei. Fiz aí o 12º ano, em teatro e logo no primeiro ano percebi que queria ir mais longe nessa área.

Quando é que nasce esse bichinho pelo teatro?

Eu quando era mais miúda, a minha paixão sempre foi a dança. Mas quando cheguei ao Ballet Teatro li sobre os cursos e fiquei muito curiosa. Achei que aquilo era mais a minha cara do que propriamente só dança e, foi um pouco um salto para arriscar e perceber. Foi uma descoberta maravilhosa e não quis largar mais.

Vai para o ballet teatro mas a dada altura uma questão de saúde acabou por lhe travar esse processo e esse progresso.

Eu termino o Ballet Teatro em 2011, e depois fiz provas para entrar na Escola Superior de Teatro e Cinema em Lisboa. Depois, comecei a sentir-me mal e, depois de fazer umas análises, descobri que estava com leucemia bastante avançada. Fui internada no mesmo dia e, passado uma semana, soube que tinha entrado na faculdade, mas não poderia ir porque não tinha condições. Ainda tentaram que eu fizesse algumas cadeiras teóricas remotamente, mandaram-me trabalhos, mas foi complicado nos primeiros tempos com os tratamentos e quimioterapia não tinha condições para estar focada nisso, tinha que estar focada em mim, por isso suspendi. Entretanto, por volta do final de 2012 estive quase só entre casa e IPO, tratamentos longos e muitos ciclos de quimioterapia e felizmente correu tudo bem e venci esta situação.

Ainda voltei a estudar, teatro na ESMAI, mas interrompi novamente devido ao meu problema. Mas nunca perdendo a confiança e o desejo de continuar com a vida, de encontrar um objetivo, sendo no teatro ou não sendo no teatro. E acabou por não ser no teatro. A representação ficou em suspenso e eu tentei encontrar oportunidades. Então, fui para a Faculdade de Letras do Porto, onde tirei o curso Línguas e Culturas, depois conheci o meu patrão atual, que tem uma empresa em Inglaterra, de produção de mobiliário/estofos e queria abrir em Portugal. Fui contratada e ainda hoje estou lá, a trabalhar em logística. Descobri outro lado meu, que nem eu sabia que era capaz e na verdade eu acho que nós somos capazes de tudo, basta termos vontade e interesse e não há nada que uma pessoa não possa fazer.

Apesar dos caminhos se terem desviado, manteve o gosto pela arte e hoje em dia é o rosto de várias marcas nacionais e internacionais.

Sim, isto porque o que me trouxe o Ballet Teatro, foi de me conhecer a mim própria e perceber que eu, ou através da dança ou da representação, que sempre gostei muito de comunicar e isso deixava-me feliz. Portanto ainda que fosse um desafio o trabalho que eu tenho agora e que é a outra parte daquilo que eu gosto de fazer na vida, estava a faltar-me isso, voltei aos espetáculos, voltei a fazer as brincadeiras e voltei a perceber que queria muito voltar para ali de alguma forma. Foi nessa altura que decidi enviar umas fotografias e falar com algumas agências para voltar a trabalhar na área ainda que não tivesse feito o curso. Comecei a trabalhar com a Agência a Norte, no Porto, e daí é o processo normal, muitos castings, essencialmente para trabalhos comerciais e felizmente tem corrido bem.

Que campanhas fez até hoje, qual foi aquela que lhe deu mais gozo fazer?

A que me deu mais gozo fazer, foi este ano a Oliveira da Serra, porque tem uma mensagem muito específica, uma mensagem de sustentabilidade e tem mais texto. Normalmente as publicidades tem pouco disso, e são coisas muito rápidas e nesta havia uma mensagem, havia um texto e uma imagem muito bonita e gostei muito.

Mas mantém as suas ligações a Paços de Ferreira?

Paços de Ferreira é a minha terra, eu por mais que vá umas temporadas lá fora eu gosto muito de Paços de Ferreira e gosto muito de viver cá. É sempre para aqui que eu volto.

No meio mais competitivo como é que se sente uma jovem de Paços de Ferreira?

É sempre diferente, uma pessoa que viva só para conseguir trabalhos. Não é o meu caso, pelo menos por agora, não quer dizer que não seja essa uma das minhas vontades. E por isso, ainda não senti bem o que é a questão da competitividade entre os meus colegas, que na realidade eu não acho que há assim tanto quanto isso. Para uma jovem de Paços de Ferreira, ou para qualquer outra jovem, é quase sempre trabalhar em Lisboa, é uma máquina a trabalhar para aquilo, é muita gente, muitas horas e é cansativo. Mas quem vem de uma terrinha pequenina como Paços de Ferreira é sempre curioso.

Este é um mercado em expansão, ou é cada vez mais um mercado que se debate com dificuldades como tantos outros?

Sim completamente, e lá está não deixa de ser uma escolha minha continuar o meu trabalho e não desafiar à força para esse mundo, porque cada um tem os seus objetivos e para mim é importante um certo equilíbrio que se sobrepõem aquilo que é a minha vontade de ser atriz, mas a vida também dá muitas voltas, tanta coisa me aconteceu que há alguma cautela, pelo menos é assim que trabalho na minha vida.

Também não fica de lado o futuro passar por uma dedicação total.

Não, aliás cada vez fica mais próxima, e ainda não chegou a hora certa, e também não se sabe como isso vai correr. Portugal é pequenino e tem muita gente a trabalhar nessa área, é uma área muito complicada, com pouco apoio e, portanto, eu sei bem onde me vou tentar meter.

Raquel viveu um momento difícil. Sente que de alguma forma pode ser um exemplo para alguém?

Sim, acima de tudo é isso. O estado de espírito é muito importante, a vontade de viver, de queremos mais da nossa vida. Quem gosta muito de viver e quem quer conquistar o mundo, tem que se levantar da cama e trabalhar para isso. Temos que olhar a vida com positividade. Acho que no meu caso é isso que sinto, depois do que já me aconteceu, perde-se um bocado a noção. E quando olho para trás eu sei que sou o reflexo de tudo isso que consegui. A pessoa que eu sou certamente não seria a mesma se não tivesse passado por todas essas situações.

Em que é que a mudou?

Relativiza-se os problemas. Acho que nos relacionamos com a vida e com o estar aqui e com o que queremos fazer com a nossa vida, ter mais paciência, mais calma, a medir melhor as minhas decisões, a observar coisas mais pequenas.

Recentemente, aconteceu que eu fiquei muito próxima das enfermeiras que estavam comigo no IPO, eu estive na pediatria ainda, porque na altura entrei com 17 anos e lembro-me que quando saiu a primeira publicidade do Minipreço, as enfermeiras mostraram aos meninos lá e explicaram qual era minha história e eu acho que isso é das coisas mais bonitas que se pode tirar daqui. Miúdos que estão a passar pela mesma situação perceber que tudo é possível, a vida não acaba aqui, às vezes corre bem outras vez não corre tão bem, mas há sempre uma inspiração, e se eu conseguir com a minha história inspirar alguém, eu já fi co bastante satisfeita.

E é para isso que a Raquel trabalha?

Sim, acho há sempre esta questão um bocado sem fim que o ser humano tem que é “como é que nós vamos ser lembrados”. A certa altura eu achei que por estar a interromper o meu percurso constantemente eu já não ia conseguir apanhar o fio à miada, já estava meia perdida, e que o propósito que tinha para mim já não ia ter muito com que se lembrassem de mim, e está completamente errado, há tantas formas de as pessoas nunca se esquecerem ou da gente deixar uma marca aqui. É a forma como nos relacionamos com os outros, como tratamos o próximo, como nós trabalhamos, é o impacto que deixamos na vida dos outros.

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