Um viaja de mochila às costas por rotas imprevisíveis e acabou a discursar num comício na Guiné-Bissau; o outro está a cumprir o sonho de ligar Paredes a Pequim exclusivamente sobre carris. Um é advogado, o outro é deputado com raízes na ferrovia, mas ambos partilham a mesma filosofia: a verdadeira riqueza de uma viagem não está nos itinerários marcados nem nos hotéis de luxo, mas no choque cultural, no contacto direto com os locais e na liberdade do imprevisto.
De Paredes a Pequim sobre carris: a odisseia transiberiana de um apaixonado pela ferrovia
A paixão pelos comboios não nasceu nas reuniões de trabalho nem no percurso profissional diretor executivo da Unidade de Manutenção e Engenharia da Comboios de Portugal. Nasceu muito antes, quando tinha apenas quatro ou cinco anos, a caminho das consultas da mãe no Porto, e consolidou-se na adolescência a bordo do comboio especial de praias, que descia da Régua com as míticas carruagens suíças Schindler rumo a Espinho. Hoje, deputado na Assembleia da República e com uma ligação umbilical à ferrovia, este viajante paredense decidiu transformar um sonho antigo numa aventura épica: ligar Paredes a Pequim exclusivamente sobre carris.
A escolha do ponto de partida foi um ato consciente de orgulho territorial. Poderia ter apanhado um avião para a Polónia ou para Moscovo e poupado vários dias de viagem, mas o simbolismo de partir de Paredes — o concelho onde vive, trabalha e para cujo desenvolvimento contribui diariamente — era inegociável. A rota escolhida cruza o coração da Eurásia através do Transmongoliano: um desvio estratégico em Ulan-Ude que corta a Mongólia, passa por Ulaanbaatar e rasga o deserto de Gobi até à capital chinesa.
Longe de planos rígidos e itinerários milimetricamente traçados, a viagem faz-se em cima do improviso. O visto para a Rússia foi tratado online poucos dias antes da partida e a mochila — intencionalmente leve para facilitar a lavagem de roupa em trânsito — foi preparada na véspera, por volta das nove da noite. Às quatro da manhã, o caminho já se fazia a pé. Até o próprio passe do Interrail para a travessia europeia foi comprado no telemóvel, na estação, enquanto esperava pelo primeiro comboio.

Esta filosofia de flexibilidade, contudo, não invalida a dureza de determinados troços. O momento mais tenso e marcante da travessia ocorreu na fronteira entre a Polónia e a Bielorrússia. Foram sete horas de uma verificação rigorosa, com interrogatórios exaustivos e inspeção do telemóvel. Um choque de realidade geopolítico que o fez refletir sobre as discussões simplistas acerca do fecho de fronteiras no espaço europeu. Ver de perto uma passagem bloqueada evidenciou os custos humanos, familiares e económicos de erguer barreiras onde a vida de milhares de cidadãos e trabalhadores depende da circulação diária.
Com um orçamento rigoroso que não deverá ultrapassar os 2.500 euros — demonstrando que grandes viagens ferroviárias não significam orçamentos extravagantes —, a rotina a bordo segue um ritmo próprio. As noites nos beliches dos comboios economizam alojamento, e a alimentação a bordo transforma-se numa pausa consciente na rotina habitual. O Google Tradutor preenche os vazios das barreiras linguísticas e a limpeza das composições no Leste surpreendeu pela positiva.
Chegada a Pequim prevista para 18 de agosto
O objetivo permanece fixado em alcançar Pequim por volta de 18 de agosto e, entre a superação dos desafios burocráticos de bilheteira internacional e o fascínio das paisagens em mudança, a viagem cumpre o seu propósito original: provar que os carris continuam a ser uma das formas mais humanas, profundas e autênticas de unir o mundo.
Com uma forte ligação à ferrovia, José Carlos Barbosa salienta o investimento que os países por onde tem passado têm feito na ferrovia, quer na modernização da infraestrutura ferroviária e na renovação da frota, o que tem um “efeito muito positivo” na economia, caso da Polónia. “A ferrovia não é apenas uma questão de transportes, é também uma ferramenta de desenvolvimento económico e social”, refere, assegurando que “Portugal também tem dado passos importantes, mas continua a precisar de investir mais na ferrovia. Não é apenas uma despesa; é um investimento com retorno para a economia, para a coesão territorial e para a qualidade de vida das pessoas”.
A caminhar para o fim da sua aventura Paredes/Pequim, o deputado refere que “esta viagem reforçou uma convicção que já tinha: o comboio não é apenas um meio de transporte, é um instrumento de desenvolvimento”. “Em todos os países por onde passei, a ferrovia liga pessoas, aproxima regiões, reduz custos e cria oportunidades. Vi redes onde o comboio é tratado como uma prioridade nacional e não como uma alternativa. Gostava de ver Portugal apostar de forma mais ambiciosa na ferrovia: mais capacidade, mais material circulante, melhores ligações regionais e a concretização da alta velocidade entre Vigo, Porto e Lisboa, para tornar o comboio uma verdadeira alternativa ao automóvel e ao avião”, concluiu.
Aos 40 anos e com mais de 40 países na bagagem, Carlos Moreira Fernandes prefere o imprevisível: “viajar acrescenta muito mais do que umas moedas no bolso”
Sem hotéis reservados, sem roteiros rígidos e com um gosto particular por destinos fora das rotas turísticas convencionais. É assim que o advogado Carlos Moreira Fernandes, de 40 anos, explora o mundo há mais de uma década. Do Iraque ao Uzbequistão, a sua filosofia de viagem assenta na procura do choque cultural autêntico, na liberdade da solidez do imprevisto e no contacto direto com a vida local.
A mudança de paradigma aconteceu há 12 anos, quando decidiu começar a viajar sozinho. A escolha, longe de ser um ato de isolamento, revelou-se a chave para uma imersão mais profunda nas realidades que visita. “Viajar sozinho permite conhecer as coisas de forma mais pessoal, sem influência de terceiros. Há mais liberdade e mais abertura, é mais fácil o contacto com os locais e ir a regiões mais remotas, muitas vezes com condições logísticas menos boas”, explica o advogado.
O processo de planeamento reflete esse espírito de improviso. Carlos compra os voos de ida e de regresso — embora já tenha alterado o regresso em cima da hora —, faz uma pesquisa prévia sobre o destino e desenha um trajeto inicial. Contudo, a flexibilidade é a regra de ouro, e mantém-se fiel ao previsto nos primeiros dias, mas depois costuma alterar. “Vou sem hotéis marcados para usufruir da viagem em função do que mais me agrada.”
Do choque da Índia aos discursos na Guiné-Bissau
Com um mapa de viagens que cruza a Ásia, África e América do Sul, há um país que ocupa um lugar especial no seu percurso: a Índia. É o único destino que repetido até hoje. “Acho que é um país onde o choque cultural se sente em maior escala. É um país de norte a sul completamente diferente em todos os aspetos, monumentos, povo, paisagens. O trânsito, o ruído e a azáfama fazem-me ficar meio perdido, e no meio disso tudo encontramos discrepâncias profundas entre a população, entre a riqueza e a pobreza.”
Na sua lista de destinos recentes constam viagens ao Uzbequistão, ao Cazaquistão e ao Iraque, onde passou a passagem de ano de 2025. Das dezenas de fronteiras cruzadas, guardam-se também episódios insólitos. Na Guiné-Bissau, durante um período de campanha eleitoral, Carlos acabou a discursar num evento político. “Fui convidado para discursar por um candidato à assembleia que tinha conhecido há pouco tempo, e discursei.”

Hospitalidade sem artifícios
Embora admita que alguns destinos possam gerar um receio inicial, Carlos garante que esses países acabam por ser as surpresas mais agradáveis. “Não posso dizer que não tive situações em que me senti inseguro, mas depois percebo que é uma ideia errada, porque nunca senti que estivesse em risco real. O facto de verem um turista acentua a necessidade que os locais têm de mostrar o país, e as coisas acontecem naturalmente.”
O objetivo passa sempre por fugir do turismo de estância e das experiências “artificiais” de hotel. O foco está na dinâmica real do dia a dia, no comércio local e na vivência comunitária. Sem nunca ter tido problemas burocráticos significativos nas suas passagens de fronteira, Carlos demonstra que viajar para destinos remotos com antecedência de planeamento também pode ser bastante acessível do ponto de vista financeiro.
O Próximo Destino: A Autoestrada do Pamir
Para o futuro próximo, os planos já estão traçados. O próximo objetivo passa por percorrer a Pamir Highway, numa expedição pela Ásia Central e pela histórica Rota da Seda, uma das regiões mais isoladas do planeta.
Para Carlos Moreira Fernandes, a busca pelo próximo destino é um “vício” contínuo que compensa qualquer investimento. “Viajar enriquece as pessoas. Empobrece em termos monetários, mas traz muito mais do que isso. Acrescenta muito mais do que umas moedas no bolso”, conclui.


