A cidade de Penafiel volta a transformar-se na capital da literatura lusófona entre os dias 20 e 25 de outubro para acolher a 19.ª edição do Escritaria – Festival Literário de Penafiel. Este ano, o certame presta homenagem a Luís Cardoso, uma das figuras cimeiras da literatura contemporânea de Timor-Leste. Grande parte das iniciativas terá como palco principal o equipamento cultural Ponto C – Cultura e Criatividade, estendendo-se também a escolas, praças e outros espaços públicos do concelho.
Ao longo de seis dias, o Escritaria propõe um programa multidisciplinar dedicado à vida e obra do escritor timorense, cruzando literatura, música, cinema e artes visuais, com destaque para temas como a memória, identidade, exílio, resistência e liberdade. A edição conta com diversas personalidades da cultura portuguesa e lusófona, entre as quais D. Américo Aguiar, Dulce Pontes, Sérgio Godinho, Shahd Wadi, Ondjaki, Adelino Gomes, Ana Gomes, Ana Sousa Dias, entre outros.
Literatura, memória e a causa timorense
Nascido em Kailako, em 1958, Luís Cardoso chegou a Portugal em 1975, na sequência da invasão indonésia do seu país natal. Além do seu percurso literário, desempenhou um papel ativo na causa timorense como representante do Conselho Nacional da Resistência Maubere em território nacional.
Autor de títulos de relevo como Crónica de Uma Travessia, Requiem para o Navegador Solitário, Para Onde Vão os Gatos Quando Morrem?, O Plantador de Abóboras e Hotel Timor, o escritor viu o seu trabalho reconhecido com o Prémio Oceanos em 2021. Em 2023, foi agraciado com o Colar da Ordem de Timor-Leste.
Entre os momentos simbólicos do festival figura a inauguração da tradicional silhueta de homenagem a Luís Cardoso no espaço urbano de Penafiel, agendada para a manhã de 23 de outubro, bem como a abertura da exposição Takas: a literatura extraordinária de um viajante timorense, na Biblioteca Municipal, no dia 24.
Das canções de resistência ao diálogo com a Palestina
A dimensão musical do Escritaria 2026 integra um tributo especial a Luís Represas, com a participação de músicos e compositores como Manuel Faria, João Gil e Mona Miari. O momento evocará “Timor”, emblemático tema dos Trovante (com autoria de João Gil e João Monge e interpretação de Represas) que marcou a solidariedade da sociedade portuguesa com a luta timorense pela independência.
O cartaz musical inclui ainda atuações de Dulce Pontes e um concerto de encerramento de Sérgio Godinho, acompanhado ao piano por Filipe Raposo.
A reflexão sobre a resistência e a liberdade estende-se também ao contexto da Palestina, através do envolvimento da cantora e compositora palestiniana Mona Miari — que colaborou recentemente com Roger Waters na recriação de Comfortably Numb — e da investigadora e escritora Shahd Wadi, radicada em Portugal.
Programa multidisciplinar envolve a comunidade
O festival contempla ainda a exibição da obra cinematográfica O Voo do Crocodilo, do realizador Fernando Vendrell, ao lado de produções cénicas dinamizadas pelo Teatro do Vestido, Circolando e Teatro Griot. A agenda integra exposições de fotografia e pintura focadas em Timor-Leste, visitas encenadas inspiradas em lendas locais e sessões nas escolas do concelho.
No encerramento, o evento sublinha o intercâmbio cultural com a participação do Grupo de Estudantes Timorenses no Porto e uma mostra dedicada à gastronomia tradicional de Timor-Leste.
Criado em 2008, o Escritaria celebra anualmente a obra de um autor vivo de língua portuguesa. Ao chegar à sua 19.ª edição, o certame consolida Penafiel como um ponto de encontro e debate em torno do livro, da criação artística e da lusofonia.

