Amelia Monteiro
Fotografia: Amelia Monteiro

Daniel Seabra tem 29 anos e venceu recentemente o Prémio Jovens Artistas Coliseu Ageas. Este artista de circo, natural de Sobrosa, no concelho de Paredes, mas com a família a viver em Ferreira, em Paços de Ferreira, em entrevista ao Jornal IMEDIATO falou da dificuldade que é ser-se artista de circo em Portugal, uma arte que, entende, precisa de mais apoios e mais condições de trabalho.

Com um vasto percurso nacional e internacional, o jovem artista mostrou o seu agrado pelo reconhecimento que lhe foi dado pelos colegas na atribuição deste prémio, que espera, permita que as pessoas com responsabilidades comecem a olhar com outros olhos para a arte circense, uma arte que se
tem vindo a renovar, mas cuja magia não cai no esquecimento.

 

Quem é o Daniel Seabra?

Então, esta é complexa. O Daniel Seabra é um miúdo grande de 29 anos, apaixonado por aprender. Sou um apaixonadíssimo pelo circo, bem como por outras expressões artísticas. É um amante de viagens e de adrenalina. Muito interessado por política. Como profissional tem desenvolvido o seu trabalho em torno do circo, mas também é professor em projectos sociais e escolas artísticas, também tem colaborado com algumas companhias de Teatro pelo país e conta com três longas metragens já gravadas.

É de Paços de Ferreira ou Paredes, pois os dois municípios reivindicaram a sua naturalidade?

Eu sou natural de Sobrosa, concelho de Paredes, a minha família já há uns anos mudou-se para Ferreira e a minha relação com o município de Paços de Ferreira é no que toca a serviços sempre foi muito mais próxima, visto geograficamente ser muito mais perto de Sobrosa, do que Paredes.

Como surge o circo na sua vida?

Então, o circo na minha vida surge em 2010 em Sobrosa. Conheci no café uma rapariga chamada Samaritana, que era de um circo que passava naquele momento na aldeia, que se chamava na altura Flic-Flac.  Perguntei-lhe se podia ir visitar a tenda e disse-lhe que fazia ginástica. No meio desta magia toda da montagem da tenda, do cheiro do feno para os animais, lembro-me que havia um macaco que toda a gente temia (por ser agressivo). No meio desta agitação toda, ela convidou-me para experimentar Lira (um aparelho aéreo em forma de círculo, que era a sua especialidade). Nesse mesmo dia percebi que era ali que queria ficar. E, portanto, nas semanas seguintes atuei com este circo em diferentes aldeias ali na zona. Nesse mesmo ano fiz audições para o Chapitô, em Lisboa e entrei e lá foi o Daniel de 16 anos viver sozinho para Lisboa.

E como evoluiu até à acrobacia aérea?

Dentro da formação do Chapitô, temos de fazer diferentes disciplinas de forma a sermos avaliados. No primeiro ano eu fazia arame e trapézio, e nos anos seguintes especializei-me em trapézio e corda vertical.

Quem foi a sua inspiração?

Logicamente as minhas inspirações nessa altura não são as mesmas de hoje. Lembro-me que era um apaixonado pelo “Circo du Soleil” e por “7 doigts de la main”. E é muito engraçado ver que agora são provavelmente as companhias que eu não aprecio tanto, e que creio até que têm uma linguagem não tão actual. Mas sim, inevitavelmente foram companhias referência naquela altura (2010/2012).

Em que projetos tem participado? Em Portugal e no estrangeiro?

Bem, nos últimos anos, tenho participado em diferentes tipos de projetos. Com projetos de circo trabalhei com Pinder, La Fura dels Baus, Circo Aquático, Disney (internacional) em Portugal trabalhei com companhia Erva Daninha, Companhia da Esquina, com os artistas visuais João Pedro do Vale e Nuno Alexandre. Trabalhei ainda com o Teatro experimental do Porto, o Paradise Circus, o Royal Circus, com o Chapitô e com os projectos assinados por mim. Fui ainda acrobata para a Anita, a cantora e gravei filmes com Ivo Ferreira e Rodrigo Areias e participei numa séria francesa sobre a Mata Hari.

Em que projeto está envolvido atualmente?

Atualmente trabalho com a companhia Erva Daninha, quer nos projetos artísticos, quer nos projetos de intervenção social e também no Festival Trengo. Continuo a trabalhar como freelancer também para encomendas de Performances, e para a minha companhia Circo Caótico.

Venceu recentemente o Prémio Jovens Artistas Coliseu Ageas. Que importância tem para si esta distinção?

É importante a vários níveis. Em primeiro lugar é maravilhoso, logicamente, o meu trabalho ser reconhecido pelos meus colegas. Em segundo, haver um prémio para o circo, que até então não havia. O meu trabalho tem uma estética e identidade muito específica, que às vezes se afasta um bocadinho da lógica mais de entretenimento. E, inevitavelmente, atinge um publico mais específico. E este prémio vem também realçar que esse caminho é possível e até necessário, se calhar. Acredito num circo inovador, de experimentação, e este júri que era tão variado, de diferentes estilos, atribuírem-me este título, valida de alguma forma esta minha vontade.

Até onde gostaria de ir na sua arte?

Acho que estou onde gostava de estar. Talvez internacionalizar mais um bocadinho os meus projectos pessoais, mas não muito, porque tenho muitos compromissos regulares cá que me dão muito prazer.

Quais são as maiores dificuldades que sente como artista?

Acho que o maior problema, e isto é uma opinião muito pessoal, é a pouca importância que por vezes se dá a um projeto artístico. Quero com isto dizer, o facto de ter sido apoiado pela Gulbenkian para um projecto, ou por trabalhar com companhias com um historial gigante, põe-me a mim, Daniel, num lugar em que um programador, um agente cultural, me vai escutar com uma certa facilidade. Conheço tantas vozes, tantos jovens sem este privilégio e com projetos artísticos com tanta urgência, e às vezes, só falta esta “validação”.

E o que entende deveria ser feito pela sua arte?

Em primeiro lugar, acho que começa nas escolas. Tenho três irmãos, dois com que falo quase diariamente, as propostas de visitas de estudo que lhes são feitas são inenarráveis. Desde viagens, a Roma, Madrid, Paris, com um intuito educativo de, se calhar, 10 por cento. Acho no mínimo, estranho, que durante um ano letivo inteiro, não lhes seja proposto visitas a exposições, ou idas ao teatro, circo, performance. Ou seja, acho que se devia olhar para os produtos artísticos, exatamente como eles são, A VISÃO DE OUTRA PESSOA (no caso o Artista) sobre X ou Y, uma peça, pode também incomodar, desinquietar, deixar-nos desconfortáveis e mostrar-nos outro ponto de vista sobre um assunto e aí começa a reflexão e a educação. Vivemos tempos assustadores politicamente, e é muito urgente ouvirmos outras vozes, outras realidades, consumir espetáculos, exposições.

Ao longo dos anos, o circo, a sua magia e as suas tradições têm desaparecido. A que acha que se deve este esquecimento?

Ufff, esta é complexa. Não acho que o circo tem desaparecido, acho sim que se tem renovado, e como qualquer renovação, haverá sempre coisas que não conseguirão acompanhar esta mudança. Um exemplo (de ideologia pessoal), acho bárbaro o uso dos animais no circo, e como eu, muita gente. Se há 10 anos eu tolerava, hoje sou incapaz de ir a qualquer tipo de espetáculo que recorra ao uso de animais para entretenimento humano. A magia continua a existir, neste momento há muito mais programação de circo em teatros, existem dezenas de festivais de circo pelo país, e continua a haver os circos itinerantes em tenda, acho que existem mais opções e variadas. Tal como a música, o teatro e dança evoluíram, o circo está a viver essa mudança. Mas não acho que esteja em esquecimento.

É difícil ser artista em Portugal?

Para mim, há duas perguntas dentro desta pergunta. Ser artista em Portugal é difícil. Quando essa pergunta me é feita a mim tem rasteira, porque sim e difícil ser artista em Portugal, e o facto de fazer circo é ainda mais difícil. As grandes diferenças de artista, para artista de circo, são que em primeiro lugar há uma série de apoios à criação artística (apoios estes privados e alguns públicos) que continuam a não assumir o circo como uma linguagem artística e então somos obrigados a assumir uma linguagem para as candidaturas, que não nos corresponde. Em segundo tem haver com as infraestruturas, por exemplo, eu Daniel, sou trapezista, nenhum espaço de residência artística até há 2 ou 3 anos tinha condições técnicas para eu me pendurar. Aliás, melhor exemplo, há dois anos numa criação com um trator, tivemos de ensaiar seis meses, diga-se de Janeiro a Junho ao ar livre porque não existe oferta de espaço de residência ou ensaio com estas dimensões. Tenho tido sorte de estar rodeado de malta com muita experiência e cheia de vontade de criar, de outra forma seria impossível.

Foi considerado um dos grandes nomes da nova vaga do circo contemporâneo. O que significa para si e que responsabilidades lhe traz?

Bem, primeiro significa que este caminho que tenho feito até agora tem tido impacto e, portanto, é nesta linha que quero continuar a trabalhar. Quanto a responsabilidade, creio ser a mesma. É uma coisa que levo muito, muito a sério, sinto que tenho alguma influência sobre as pessoas que me estão a ver quando estou em cena. Todos os meus projetos têm sempre várias camadas, e tento sempre que sejam (as vezes subtilmente outras não) politizados. Criar desconforto, levantar questões. Quando estou em cena é o meu espaço de partilha, mas também de provocação.

 

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