Cultura / Artista

Esquecidos pelo seu país, muitos têm sido os artistas e intelectuais portugueses que, no último ano, e com mais intensidade nas últimas semanas, nos têm deixado. Nomes de A a Z que fizeram parte da história da arte e da cultura nacional. Alguns habitando no nosso imaginário coletivo, outros esquecidos no tempo. Vítimas da COVID-19, da velhice, do abandono e do tempo que passa sem voltar a ouvir as palmas do público nem o agradecimento pelo muito que fizeram na cultura do seu país.

Quando em dezembro morreu Eduardo Lourenço, filósofo e ensaísta, o maior pensador português do século XX, fiquei espantado com as mensagens que recebi, de pessoas jovens e aparentemente informadas, a perguntar quem ele era. Certo é que há algum tempo que estava ausente das luzes mediáticas, mas mantinha uma presença ativa, porque a velhice física não lhe roubava a juventude intelectual.

Nos últimos anos, foram muitas as entrevistas que deu a jornais, revistas, televisões. Em 2018, inclusivamente, participou num filme baseado no seu livro “Labirinto da Saudade”. É verdade que fazia parte de um círculo intelectual mais erudito, mas, ainda assim, era um dos maiores entre os grandes nacionais. Estava esquecido, ignorado até, numa altura onde é tão necessário refletir sobre nós, portugueses. Tinha 97 anos.

Mais recentemente, morreu Carmen Dolores, uma das maiores e mais consagradas artistas portuguesas. Mulher das palavras, teve uma carreira de 62 anos no cinema, televisão, mas sobretudo no teatro, onde representou as peças de autores de grande prestígio mundial, como Pirandello, Brecht ou Tchekhov. Foi fundadora da Casa do Artista, em Lisboa. Recebeu os maiores prémios e condecorações nacionais, acabando por abandonar o palco em 2005, aos 81 anos. No dia em que ela morreu, e após partilhar nas redes sociais a triste notícia, recebi mais mensagens a perguntar quem ela era. Tinha 96 anos.

Este esquecimento coletivo dos seus grandes é explicado, por um lado, pelo desinvestimento na cultura, mas sobretudo pelo facto do país não respeitar nem valorizar os seus velhos. Todos estes artistas e intelectuais que morreram recentemente foram e são parte da nossa história coletiva. Construíram aquilo que somos enquanto país, sociedade e, acima de tudo, modelaram a nossa cultura. Pensaram e fizeram-nos pensar. Na sua maioria, estes velhos, contribuíram para democratizar o nosso país através do teatro, da música, da literatura. Deram-nos a liberdade!


“Todos estes artistas e intelectuais que morreram recentemente foram e são parte da nossa história coletiva. Construíram aquilo que somos enquanto país, sociedade e, acima de tudo, modelaram a nossa cultura”


No entanto, mal surgiram as primeiras rugas, as marcas de uma vida, trouxeram consigo um prazo de validade e um gradual processo de esquecimento, votados apenas a surgir na programação da RTP Memória. Automaticamente começaram a ouvir que “precisavam de dar o lugar aos mais novos”, como se os mais novos conseguissem substituir a dedicação, experiência e sabedoria que todos estes artistas e pensadores trazem consigo.

E isto é tão premente que a própria televisão embarca nesta estupidez, cometendo a aberração de, por exemplo, colocar atrizes de 40 ou 50 anos a fazer o papel de velha, matriarca e avó. Não somos um país para velhos, mas somos um país para “fazer de velhos”!

Por isso, cabe a nós, os mais jovens e, de alguma forma, ligados à cultura, não deixar esquecer estes nomes grandes nacionais, mas, acima de tudo, locais. Temos a missão, até porque seremos os velhos do futuro, de integrar na nossa vida cultural e associativa rostos com rugas e cabelos brancos que trazem histórias, vidas, dedicação à causa pública e sabedoria de tempos que fazem parte da nossa identidade. Deixar morrer em palco, a escrever as suas palavras, a cantar as suas músicas, para que, quando partirem, sejam poucos aqueles a perguntar “quem foi?”.

E assim, talvez, consigamos que, um dia, quando nós formos os velhos, não sejam outros a fazer o nosso papel!

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