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Tenho tentado não falar da Igreja, dos abusos de menores em particular, mas isso é difícil. Conforme o assunto vai sendo tratado, estou cada vez mais chocada e isso também me leva a reagir… Há muitos anos, o meu percurso académico levou-me a frequentar, como aluna interna, um colégio “governado” por freiras, no Porto. Então, aprendi muito de Filosofia, Português, Grego e Latim, mas as freiras haviam de me marcar, pela negativa… Eram más, frustradas, autoritárias, pouco sensíveis… Obrigavam-me a passar, diariamente, pela capela para rezar antes do pequeno-almoço… E depois, outra vez, antes das aulas começarem… E depois outra vez, … outra vez… Um único professor, homem, antes de todas as outras, mulheres…

Só alunas, como eu, longe de um mundo diferente, fora daquelas paredes frias e distantes… Fiquei atenta, quase marcada para a vida, já longa, que ainda estou a viver… E que vou confirmando…

Finalmente, e ainda bem, tomamos conhecimento do que se passou, ou ainda se passa, face aos abusos de menores no seio da Igreja. Confirmou-se que, ao contrário do que alguns ansiavam, a Igreja portuguesa não é excepção e os abusos de menores não são “um fenómeno fundamentalmente anglo-saxónico”. São um fenómeno americano, africano, europeu… potenciado por uma cultura de encobrimento que não só permitiu a continuação dos crimes, como quase promoveu a sua multiplicação…

Este é, está a ser, um dos maiores, se não o maior escândalo da Igreja e o que aconteceu em Fátima com a reunião/conferência dos Bispos, foi o apanhado de uma igreja cautelosa, incapaz de tomar medidas rigorosas e, sobretudo, uma grande tentativa de aliviar o problema.

A Igreja não sabe o que fazer com as denúncias. Tantas! Recebeu a lista de suspeitos e convocou os Media. Então, só se ouviu um padre sem empatia e um bispo muito baralhado. Nesta última 6ª feira, 3 de Março, foi grande o contraste entre o que se esperava e o que foi dito em Fátima. Uma enorme decepção!

Os bispos receberam da Comissão Independente, uma lista com cerca de 100 nomes de agressores. Então, em vez de anunciarem uma investigação profunda sobre o caso, acabam a dizer que é tudo “muito difícil” e que não se pode afastar nenhum padre só porque se disse que alguém abusou de alguém… Nessa data, o bispo José Ornelas enredou-se nas suas próprias palavras, defendendo que essa lista, às vezes, só tem nomes “Jacinto ou Albino” e nada de nomes de denunciantes… Um disparate e um balde de água fria, afinal!

Já passou algum tempo depois dessa conferência de imprensa dos bispos sobre os abusos e a única coisa que conseguiram acordar de concreto foi a construção de um memorial às vítimas durante a Jornada Mundial da Juventude. Para quê? Já se sabe que a Igreja é excelente em memoriais, vigílias, velas e orações…  E porquê? Não é disso que as vítimas de abusos estão à espera… Já houve debates e algumas propostas de reflexão mas isso não passa de uma mão cheia de nada face aos crimes e danos cometidos. Indemnizações às vítimas? Para quê se isso não apaga todos os males… Que se condenem todos os padres abusadores! Que se afastem todos os bispos que encobriram os factos!

É claro que a pedofilia se alarga a toda a sociedade mas a Igreja estará sempre debaixo de todos os holofotes. Tal como o Dr. Daniel Sampaio, da extinta Comissão Independente, também concordo que há muitas vítimas em profundo sofrimento e também acho que a crítica principal, à resposta da Igreja, é que as vítimas não estiveram sequer no centro da resposta dos bispos e isso decepciona! Com a Igreja, estou cada vez mais desiludida!

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