Desde que não trabalhe na área da saúde (nomeadamente na emergência médica), na área da segurança ou da proteção civil, a pergunta que se coloca é: Qual é a pressa?
A vida parece um corre-corre para todo o lado: no trabalho, em casa e em qualquer lugar! Até um pequeno descanso é feito «à pressa»! Ficamos cansados e, quando vamos para a cama à noite, não conseguimos dormir! São noites em claro, de agitação. A cabeça parece uma máquina de lavar roupa na fase de centrifugação e, quando finalmente começamos a adormecer… o despertador toca! Preparados para uma nova repetição do dia anterior? Parecemos «ratinhos» a correr na sua «rodinha», só que, na maioria das vezes, sem vontade! Como pode uma sociedade assim estar saudável? Obviamente que não está.
Toda esta pressa origina comportamentos sucessivamente menos saudáveis. Há que ganhar tempo! Já quase não se cozinha! Há todo um mundo de comida processada, com inúmeros aditivos e falsamente saborosa, pronta a ser consumida… quase diariamente. Já quase não se escreve… com caneta de tinta! Já quase não se lê… em papel e sublinhando as partes mais importantes! Entrega-se uma página A4 a um jovem para ler… e a pergunta é: «Isto tudo?» Toda a ação tem de «gastar» o mínimo de tempo possível! Qual é a pressa?
As novas tecnologias da informação e da comunicação (que já vão sendo velhas) vieram poupar inúmeras horas de trabalho… só que esse tempo foi, novamente, ocupado… com mais trabalho! Foi uma ilusão pensar que se iria ficar com mais tempo livre. O trabalho tornou-se mais simples… mas aumentaram a «carga» de trabalho e o ritmo de trabalho! Já não temos «papéis» para preencher, mas inúmeras plataformas… que não dominamos e que «encravam» nos momentos de maior «stress»! Cada vez se introduzem mais indicadores, mais dados, mais evidências…! Já não chega fazer… bem feito! É preciso apresentar evidências de que se fez (nem que seja de qualquer maneira)!
A urgência da produtividade desumanizou a sociedade e, quer trabalhadores quer clientes… passaram a ser apenas números. Já não somos o Sr. ou a Sr.ª Fulano(a) X; somos o número fiscal Y! Em qualquer atendimento automático, num banco, numa clínica, numa organização, etc., lá temos de introduzir os dados e escolher uma opção qualquer (porque aquilo que queremos nem sequer está listado!). Tudo é contabilizado: quantos clientes atendidos, quantas consultas, quantos contratos, quantos… «qualquer coisa»!
Já não chega atender um cliente com profissionalismo… é preciso, no fim, «suplicar-lhe» que, no telefonema que irá ser feito para o «controlo de qualidade», responda, numa escala de 0 a 10, com uma classificação mínima de 8!… Por favor!
Hoje, vai-se a uma organização numa pequena localidade, toca-se à campainha física do edifício… e quem atende… é alguém da capital que diz para… enviar um e-mail! Ninguém tem tempo para atender presencialmente ninguém. Está tudo com pressa, a fazer as coisas… com pressa! Afinal, existem rankings e estatísticas para tudo. Há que ter cuidado!
Vivemos numa sociedade onde os «números» têm de ser obrigatoriamente «bons»! Um professor que tive na Universidade dizia, em jeito de brincadeira: «A estatística é como os soutiens… só mostra o que queremos mostrar». Sendo assim, o que escondem frequentemente esses números? A realidade «escura» das estatísticas esconde demasiada pressão sobre os trabalhadores, distress, exaustão mental, burnout, boreout, infelicidade, despedimentos, etc. Segundo a OIT (Organização Internacional do Trabalho), em 2025, “esconderam-se” 96 mortes por hora, derivadas dos perigos psicossociais.
A International Stress Management Association (ISMA) propôs a primeira quarta-feira do mês de novembro como o «Dia de Consciencialização do Stress». Mas, para quem será esse dia de consciencialização? Para a maioria dos trabalhadores que já estão sob stress? Isso até pode ser visto como uma afronta! Eles já ultrapassaram a fase da consciencialização! Eles são as vítimas! Já o sentem silenciosamente e, frequentemente, nem se queixam nem pedem ajuda. E não é por falta de coragem! Outros valores se levantam, normalmente a sua sustentabilidade ou a da família, nomeadamente a dos filhos. Será que os organismos a que podem recorrer, em caso de uma situação-limite, burnout (que já faz parte da Classificação Internacional de Doenças — CID-11), garantem integralmente o salário até que o ambiente laboral se altere positivamente ou consigam arranjar um emprego compatível? Pois!
Segundo a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), em Portugal, o custo da perda de produtividade, tendo como causas o stress e os problemas de saúde psicológica no trabalho, ascende já a 13,3 mil milhões de euros. Será que estes números não deveriam (infelizmente) constituir a melhor forma de sensibilização para a gestão de topo? Se assim não acontece, a «situação» é muito mais grave! Provavelmente, há que passar da sensibilização para a… fiscalização!
As organizações funcionam como as pessoas… afinal, são as pessoas que as gerem. Os custos dos riscos psicossociais ocorrem de forma lenta, ao longo do ano… não têm impacto imediato e a inércia, enquanto resistência à mudança, permite ir arrastando a situação «com a barriga»! Tal como acontece com um fumador! Fumar vai retirando lentamente dias de vida, mas só se nota no fim! Se fosse aplicada uma multa elevada a quem (reiteradamente) promove ambientes psicológicos destrutivos (cujo montante seria distribuído pelas vítimas), os efeitos seriam imediatos e a mudança teria de acontecer mesmo! Tal como o fumador, se soubesse que aquele cigarro o iria matar de imediato… pensaria duas vezes (ou mais) antes de o acender.
Acredito que todos os «problemas» organizacionais resultantes de atitudes e comportamentos humanos têm igualmente solução na mudança consciente dessas mesmas atitudes e comportamentos. Mais do que uma sensibilização, é necessária uma consciencialização sobre o distress (stress negativo) no trabalho. A fase da consciencialização está à frente da sensibilização e do conhecimento. A mudança que desejamos que ocorra nas pessoas e nas organizações só acontece após esta fase!
O Coaching Organizacional, enquanto ferramenta de excelência para provocar reflexões profundas (na gestão de topo e nos colaboradores), permitirá consciencializar todos os envolvidos e capacitá-los para uma mudança efetiva de atitudes e comportamentos desejáveis. Mais do que ter pressa, importa não perder tempo com aquilo que impede a mudança que deve ser feita!
Através da prática do Coaching, a sua organização pode passar de ambientes tóxicos e destrutivos para ambiente positivos e mais produtivos, onde tudo é feito com o tempo certo para ser bem feito! E as urgências serão sempre desprezáveis, mas jamais desprezadas, precisamente pela equipa que gosta mais de…“adrenalina”.
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