Quando me proponho escrever é pela necessidade que sinto, a de olhar em conjunto para o que nos está a acontecer… Hoje, no mundo, na Europa sobretudo, onde nos situamos. O mundo protesta, vemos e sentimos isso através das imagens violentas que passam na televisão, pelas muitas páginas dos jornais também. Madrid, Barcelona, Paris, Nantes e Roma e Milão… Em Lisboa e no Porto, mais perto de nós!
O que podemos ver nas duas maiores cidades do país, é um claro sinal de que o nosso espaço quase entrou em desvario. Foi, é possível observar os enormes exageros que estão a acontecer e, se os manifestantes, com os seus direitos, gritam para que os ouçam, o que já vimos acontecer, mostra a atitude da polícia que, orientada por não sei quem, exagera no comportamento de reacção.
Há um mundo de diferenças e é sobre isso, sobretudo, que vale a pena reflectir… Temos de pensar na acção desproporcional da polícia armada, própria de um Estado autoritário, em desacordo total com o significado da Democracia. Todos ficamos com a sensação, tenho quase a certeza, que a primeira carga policial no Porto foi uma espécie de ensaio para o que poderá vir a seguir.
E parece-me que esse ensaio correu mal! Os manifestantes em geral, os jovens em particular, não revelam qualquer receio e insistem nas suas reivindicações. O Governo em geral, o Primeiro-Ministro e o Presidente Seguro continuam em silêncio e essa atitude parece-me péssima, nós todos, não podemos permitir que a luta se faça assim. E apetece-me repetir: o Primeiro-Ministro, o Ministro da Administração Interna, o Presidente da Câmara do Porto, como o de Lisboa, estão a ter responsabilidades no aumento da violência que chega da polícia e que, naturalmente, poderá aumentar… Entre muitos, leio nos cartazes: “A malta quer casa, não porrada” e poderia melhorar a situação se os manifestantes fossem mais ouvidos, mais atendidos, mais ajudados.
Não será deste modo, com tamanha luta que chegamos lá! Não é com a força que se resolve o problema da habitação! Nem qualquer outro problema… Aqui chegada, interrogo-me de novo: a Polícia bateu a mando de Montenegro, de Passos Coelho, de Pedro Duarte ou de Moedas? Já nem sei… Afinal, o que vejo, o que me parece possível ver na rua, são jovens que estudam ou trabalham, são tantos outros que são solidários e que pedem só, formas dignas de viver… E, insisto na questão que me perturba: a violência e o autoritarismo mostram afinal como vivemos, como estamos no mundo de hoje… E depois, mistura-se tudo, quase naturalmente.
O que vivemos é um drama social, que o Governo não quer tentar resolver e, por agora, a crise da habitação é, sem dúvida, a maior chaga social dos nossos tempos. Aquilo a que assistimos, o que vemos na ruas e nas praças do país são pessoas que pedem soluções porque, em democracia, ainda se poderá pedir alguma coisa… Ou estamos a andar para trás?
Tendo ouvido, recentemente, que cada uma das minhas crónicas é uma lição, não pretendo mesmo isso mas sim um pedido de reflexão. E fica a sugestão: Com esta agitação toda, com tantos problemas que temos de enfrentar, que fique de lado a decisão “implacável” de Pedro Duarte contra tendas e que se anule a “coligação” Luís Neves – Chega, que antes parecia improvável e que, hoje, quase fim de Outubro, as vigílias, com ou sem tendas, deixem de ser necessárias! Porque está em causa o normal funcionamento da Democracia… Pensemos nisso!


