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Quando me preparo para escrever uma nova crónica para o jornal, ainda me sinto envolvida numa situação que marcou os meus dias mais recentes… Não resisto a falar dela já que o mundo em que vivemos é o oposto do que me foi possível observar nos últimos tempos. E que, afinal, outras vezes já aconteceu…

O meu neto João pediu para lhe arranjar qualquer coisa para afugentar as lesmas e caracóis que ameaçavam a sua mais recente horta… Envolvido pelo encanto da sementeira, nasceram os pés de abóbora e outras plantas, também os maracujás… Viu-as nascer, crescer, desenvolver mas, nos cuidados diários, o ataque das lesmas e dos caracóis também. Preocupado, pediu ajuda… Facilmente, arranjei, como pediu, o “remédio” eficaz para eliminar os moluscos invasores…

Tudo bem, parecia… Logo, logo, recebi uma mensagem de aflição! Não, confirmou, esse produto, quando aplicado, iria provocar uma morte lenta, de grande sofrimento…

Impossível, o sacrifício dos animais! O João, incapaz de matar o mais pequeno insecto, o mais pequeno animal invasor, optou, muito naturalmente, pelo não sacrifício ameaçador… Naturalmente, aceitei a decisão e, com ele, o acordo da devolução do produto “horrível”, causador de enorme sofrimento para os animais…

Já o devolvi… Com o João, logo decidimos que vivam as lesmas e os caracóis!

Isto que acabo de descrever é só um pequeno-grande gesto, notável, nos dias de hoje. São imensos os factos que marcam e insistem no sofrimento, na dor, na morte, na agressão… Lemos os jornais, temos acesso às notícias que nos chegam a toda a hora, a cada momento… A luta e o sofrimento enchem de horror cada dia que passa e quase toda a gente é capaz de enfrentar a desgraça, quase sem reacção. Há desastre, há morte, há fenómenos naturais quase impensáveis e ainda são poucos os que reagem contra a dor e o sofrimento… É cada vez maior a capacidade de matar sem oposição, sem que haja grandes manifestações de reacção aos ataques humanos e outras más manifestações da natureza… O mundo está louco, diferente! O ser humano, hoje, adapta-se a tudo ou quase tudo o que, antes, parecia impossível acontecer…

Vemos e ouvimos Putin, Trump, Netanyahu, outros, próximos e tudo nos parece quase natural, quase possível de poder acontecer… Perante isto ou, depois disto, ouço o meu neto João, com 17 anos,  a querer poupar o sofrimento das lesmas invasoras, prestes a morrer… Em que ficamos? Como é isto possível? Afinal, parece, o mundo ainda não está perdido… De todo! Ainda há quem queira poupar a vida de um insecto, de um molusco que era só, quase só, nocivo para as folhas da abóbora em crescimento…

Por tudo isto, quase só por um gesto de tanta grandeza, continuo a acreditar que há-de ser possível salvar o mundo em que vivemos… Não, não somos todos maus, todos iguais, não pode ser… Não acredito em milagres, mas há-de acontecer qualquer coisa que contribua significativamente para que o mundo fique melhor… Precisamos de mudar esta casa gigante que habitamos e onde, para já, todos se atropelam, se agridem, se maltratam…

Para tantos, tantos, não está fácil aguentar os dias duros que se enfrentam, para viver… Entretanto, espero, há-de chegar a hora em que seja possível afastar o veneno que faz morrer… Talvez ainda seja possível acreditar que muitos de nós tenham a sorte das lesmas que o João quis salvar… Guardarei o exemplo que também quis seguir!…

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