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Academia Pro. Albino de Matos

A pergunta “o que queres ser quando fores grande?” raramente obtém uma resposta que resista intacta ao passar das décadas. No entanto, para alguns, o fascínio pelas nuvens que se avistam do quintal de casa torna-se uma bússola inalterável. Guilherme Gomes e José Sousa pertencem a esse grupo restrito que nunca desviou o olhar do céu. Entre o rapaz que aos seis anos já guardava memórias de viagens e o jovem que cresceu em Penafiel a observar aviões com fascínio, as histórias destes dois profissionais cruzam-se agora na maturidade do cockpit. É o relato de um destino traçado cedo, mas conquistado através de um rigor que o romantismo da infância não conseguia prever.

Para Guilherme Gomes, de 21 anos, e José Sousa, de 32, o primeiro voo comercial não foi apenas um marco profissional, mas o culminar de um sonho de infância que sobreviveu a anos de sacrifício financeiro e exigência académica. Enquanto Guilherme selou o seu batismo de voo com a surpresa emocional de ter os pais a bordo na viagem de regresso da Grécia, José transformou a obsessão de criança numa carreira sólida de 2300 horas de voo, financiada pelo seu próprio esforço como agente imobiliário e negociante de automóveis. Unidos pela mesma vocação, ambos provam que a transição do fascínio infantil para a responsabilidade de transportar centenas de vidas exige, acima de tudo, a resiliência de manter a rota quando o mercado de trabalho parece fechado.

Do sonho de infância ao “Cockpit”: O voo de estreia de Guilherme Gomes

Aos 21 anos, o jovem de Paços de Ferreira realizou o seu primeiro voo comercial. Entre o rigor da formação e a surpresa dos pais a bordo, Guilherme partilha os desafios de uma profissão onde a oferta de emprego nem sempre acompanha a vocação.

Para a maioria dos passageiros do voo entre Munique e a Grécia, há duas semanas, aquela era apenas mais uma viagem de férias. Para o copiloto, sentado nos comandos da aeronave, era a realização de um sonho de infância. Guilherme Gomes, natural de Paços de Ferreira, estreou-se na aviação comercial aos 21 anos, transformando o “queres ser o quê quando fores grande?” numa responsabilidade real perante 180 passageiros.

Uma formação de altos e baixos

O percurso de Guilherme foi pautado pela disciplina. Após concluir o ensino secundário em Paços de Ferreira, ingressou numa escola de aviação para um ano de formação teórica intensiva, seguido de um ano e meio de formação prática. Mas o jovem piloto não quis apostar todas as fichas apenas no ar: enquanto iniciava as horas de voo, ingressou no curso de Gestão na Faculdade de Economia do Porto (FEP). “Fiz o primeiro ano de Gestão a par com o segundo de piloto”, recorda. Atualmente, a matrícula na FEP está congelada para dar prioridade à carreira nos céus, mas o objetivo de concluir a licenciatura permanece no horizonte. Recentemente, além da licença de voo, Guilherme dedicou-se também à formação para se tornar instrutor.

A realidade do mercado: “Só dois em quinze estão a trabalhar”

Apesar do romantismo associado à profissão e das notícias recorrentes sobre a escassez de pilotos, o jovem piloto sentiu dificuldades em ingressar no mercado de trabalho quando acabou a formação. “Fala-se de falta de pilotos, mas a realidade no mercado não é bem essa”, explica. O jovem esteve mais de um ano à procura de colocação e dos 15 colegas que partilharam a formação com ele, apenas dois estão, neste momento, a exercer a profissão.

Atualmente ao serviço de uma companhia aérea búlgara e sediado temporariamente na Alemanha, Guilherme Gomes vive o estilo de vida nómada da aviação: “Este mês estou aqui, no próximo estarei noutro lugar e isso para mim é muito entusiasmante”.

O batismo de fogo e a surpresa familiar

O voo inaugural para a Grécia foi, para Guilherme Gomes, “espetacular”. No entanto, a maior emoção estava reservada para a viagem de regresso. Sem que Guilherme soubesse, os pais — que foram o seu grande pilar financeiro e emocional num curso “trabalhoso e caro” — compraram bilhetes para serem passageiros no voo do filho.

“Sempre tive a sorte de os meus pais me levarem em viagens e as memórias de infância foram o que me fez querer isto desde os seis anos”, conta. Ter a família a bordo no momento em que assumia a responsabilidade por centenas de vidas foi o fecho de um ciclo que começou com brincadeiras de criança.

Conselhos para o futuro

Para quem deseja seguir as suas pisadas, Guilherme Gomes deixa conselhos e explica que o curso não é impossível, mas exige uma carga horária elevada e, acima de tudo, resiliência financeira e psicológica. “É preciso gostar muito e ter paciência, porque o trabalho não aparece logo. É preciso trabalhar e ter sorte”, conclui.

Com os pés na terra, mas o olhar no céu, Guilherme Gomes prova que, na aviação, o mais difícil não é levantar voo, mas sim manter a rota até a oportunidade certa aparecer no radar.

Do Sonho de Infância ao Cockpit: A Jornada de Empreendedorismo e Rigor de José Sousa

Aos 32 anos, e com cinco de experiência na aviação, José Sousa personifica a nova geração de pilotos: homens e mulheres que não esperaram pela sorte, mas que construíram o seu próprio caminho através do sacrifício e do esforço constante.

Para muitos, ver um avião cruzar o céu é um momento fugaz. Para José Sousa, natural de Duas Igrejas, no concelho de Penafiel, era o início de tudo. O rapaz que cresceu a olhar para as nuvens com fascínio é hoje o homem que as atravessa diariamente, mas o caminho entre o quintal de casa e o cockpit de um avião comercial foi pavimentado com uma determinação invulgar.

O Financiamento de um Sonho

Ciente de que a formação de piloto é uma das mais dispendiosas e exigentes do mundo, José optou por não sobrecarregar a família. Após a passagem pela Força Aérea — onde procurou a proximidade com as máquinas que amava — traçou um plano para o seu futuro na aviação.

Para pagar o curso José Sousa dividiu-se em três: aluno de aviação, negociante de automóveis e agente imobiliário. “A parte mais difícil foi mesmo trabalhar e estudar ao mesmo tempo para conseguir pagar o curso”, confessa. O esforço valeu a pena. Hoje, com 2300 horas de voo, olha para trás com a satisfação de quem “comprou” a sua própria liberdade nos céus.

A Ilusão da “Linha de Chegada”

Um dos maiores mitos que José desmistifica é o de que o curso de Piloto de Linha Aérea (ATPL) é o fim da linha. “Eu pensava que era acabar e estar logo apto para voar aviões comerciais. Na verdade, não funciona assim.”

A profissão exige uma formação contínua e implacável. Entre Type Ratings (especialização num modelo específico de aeronave) e exames de simulador semestrais, a vida de um piloto é um teste permanente.

“Não conheço outra profissão em que se faça todos os dias o mesmo e se tenha de estar sujeito a provas num tão curto espaço de tempo. É essa exigência que torna a aviação tão segura.”

Da Adrenalina dos Paraquedistas ao Conforto da Aviação Comercial

Antes de chegar aos grandes jatos, José Sousa “ganhou mãos” na aviação ligeira como Jump Pilot. Uma operação complexa, de alto risco e de ritmo frenético, com dezenas de descolagens e aterragens diárias para largar paraquedistas.

Hoje, na aviação comercial, o foco mudou, mas o entusiasmo mantém-se. Para o piloto, a responsabilidade não é um fardo pesado, mas sim um compromisso diário com a excelência. “Dou todos os dias o melhor de mim para garantir a máxima segurança”, afirma de forma pragmática.

Um Escritório com a Melhor Vista do Mundo

Quando questionado sobre o que o prende à profissão, a resposta é imediata: a imprevisibilidade. Numa era de rotinas de escritório, José Sousa encontra a felicidade na meteorologia que muda a cada hora, no desafio de operar em diferentes países e, claro, na vista privilegiada do seu “escritório”.

Aos 32 anos, José Sousa não é apenas um piloto; é a prova de que, com estratégia e suor, o céu não tem de ser um limite intransponível, mas sim o destino final de quem se atreve a trabalhar por ele.

 

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