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A celebração secular uniu as vilas de Entre-os-Rios e Torrão num cenário único de 25 mil velas. O “Sermão do Encontro” foi o ponto alto de uma noite que afirma o potencial turístico e religioso da região.

A tradição voltou a cumprir-se nas margens dos rios Douro e Tâmega. Ontem à noite, as localidades de Entre-os-Rios (Penafiel) e Torrão (Marco de Canaveses) transformaram-se num anfiteatro de luz para receber as Endoenças, uma das celebrações de fé mais singulares e visualmente impactantes de Portugal.

Centenas de fiéis e visitantes percorreram as ruas iluminadas para assistir ao momento alto da noite: o Sermão do Encontro, onde as imagens de Jesus Cristo e de Nossa Senhora das Dores se cruzam simbolicamente no largo da Capela de São Sebastião.

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O brilho de 25 mil “tigelinhas”

O cenário místico que caracteriza o evento é fruto de um trabalho minucioso que começa logo pela manhã. Este ano, cerca de 25 mil tigelinhas foram estrategicamente colocadas nas margens dos rios, varandas e ruas das freguesias.

A logística envolveu um grupo de 35 voluntários, coordenados pela Junta de Freguesia de Eja. Curiosamente, a renovação geracional é uma realidade nesta tradição. Carolina Ferreira, de 20 anos, participa há cinco no acender das velas: “É uma tradição que nos une como freguesia”.

Vitória Ribeiro, de apenas 14 anos, personifica uma “mulher de Jerusalém” na procissão, motivada pela fé e pelo sentido de pertença à sua terra.

Fé que atravessa gerações e fronteiras

A procissão não atraiu apenas os residentes locais. Entre as centenas de participantes — muitos dos quais caminhavam descalços em cumprimento de promessas — encontravam-se rostos da diáspora e de concelhos vizinhos.

Daniela Silva, emigrante no Luxemburgo, regressou a casa para ver as Endoenças pela primeira vez: “Levo daqui muita fé e vejo que ainda há esperança”. Já a sua mãe, Lúcia Silva, recordou com nostalgia como a celebração mudou em meio século: “Há 50 anos atravessávamos o rio de barco. Mas continua a ser um momento muito nosso que não se pode deixar cair”.

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Um ativo para o Turismo Religioso

Pedro Cepeda, presidente da Câmara Municipal de Penafiel, destacou o “simbolismo particular do evento”, por se tratar de uma iniciativa que atrai milhares de pessoas para a margem dos rios, num cenário de “uma beleza natural ímpar”. A isto, alia-se o facto de ser um momento de reflexão, em que os católicos pensam também “num momento de esperança, de que o dia de amanhã será melhor”, simbolizado pelas luzes.

Ao longo dos anos, a autarquia e a Junta de Freguesia têm apostado na promoção do evento, pelo potencial que a zona ribeirinha tem. “Acreditámos que, por esse potencial, poderá ser apresentado, no futuro, como um dos grandes eventos do ponto de vista do turismo religioso do Porto e Norte de Portugal”.

Isabel Guedes, presidente da Junta de Freguesia de Eja, manifestou o seu orgulho pelo trabalho realizado. “Este é um evento secular, que já é tradição para os que fazem parte deste lugar, mas para todos aqueles que nesta época já têm determinado que esta quinta-feira é passada aqui”, concluiu.

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