Não quero precipitar-me mas, tomando conhecimento do documento do Ministério da Educação, em consulta pública, para a alteração do Programa de Português do 12º ano a entrar em vigor em 2027/28, fico incapaz de não reagir de imediato…
Na informação que recolho, Saramago, poderá deixar de ser obrigatório no 12º ano… Como é isso possível? Saramago, o nosso Prémio Nobel da Literatura, não pode ser opção, Saramago tem de continuar a ser de estudo obrigatório! Para os professores e para os alunos!
Diz-me pouco saber que possa ser escolhida, em alternativa, uma obra de Mário Carvalho, já que não tem nada a ver um autor com o outro…
Quero lá saber que o tal documento de consulta proponha que os alunos do secundário leiam 60 minutos por dia para poderem ser capazes de interpretar, recriar, debater textos e, sobretudo, que façam boas apresentações orais… E quem os ajuda a preparar os trabalhos para apresentarem oralmente? E de que se servem para a apresentação dos tais trabalhos bonitos, bem feitos e em que condições? Continuo a defender que nenhum professor pode avaliar um trabalho de apresentação se, antes, toda a matéria a apresentar não tiver sido bem tratada, bem preparada, e bem trabalhada… Discordo dos programas tratados, aparentemente cumpridos, quando são os alunos que apresentam a matéria através do material que lhes chega, sabe-se lá como… Sempre entendi que se aprende, fazendo e um programa, fácil ou difícil, não se cumpre sem um longo trabalho prévio…
A tal proposta de aprendizagem está em consulta e, sem qualquer exagero, parece possível constatar que, afinal, os alunos lendo 60 minutos por dia, estão quase, quase aptos a saber tudo, a fazer quase tudo, muito bem…
Nenhum professor, em aula, pode limitar-se a ouvir, tal como nenhum aluno pode entender Saramago se não o estudar muito, muito bem. É um escritor difícil, bem sei, exige uma leitura cuidada, uma leitura profunda do texto em análise, dos temas, da linguagem, do estilo… Aliás, tudo isso é surpreendente em Saramago, por isso merece ser estudado. Obrigatoriamente, sem qualquer dúvida! Que se escolham passagens breves de Camilo, que se leia cuidadosamente o grande Eça que nos ensinou a ironia e que caia o teatro, se isso prejudica a atenção maior que se deva dar ao nosso Nobel da Literatura!
Não é fácil ler, descobrir, analisar Saramago… Sei bem o que isso é e, por ser assim, cada Professor terá de ler muito, estudar muito para guiar na descoberta de Saramago! O mal, o mal maior… é que se lê cada vez menos, se estuda cada vez menos… a obra de Saramago ou a de outro qualquer escritor, tantas vezes “estudados” através de meios fáceis que “dispensam” a leitura… Cada aluno terá de ser ajudado a descobrir a obra em estudo. De forma criativa, crítica, comparada… contornando-se o uso excessivo da I.A. ou de outras formas de apoio, paralelas.
E, salta-me então a pergunta: os alunos do secundário deverão ler 60 minutos por dia… o quê? E os professores? Paralelamente, professor e aluno terão de pensar bem a obra a estudar, a descobrir… Nem um, nem outro, poderá limitar-se a ouvir ou a escolher num lote enorme de cruzes, as respostas certas num programa de Literatura… Se assim é, estamos mal também por isso! Por isso se dialogo tão pouco, se comenta tão pouco,se discute ou justifica tão mal!
Acredito que a tal proposta em discussão não seja aprovada como está. Não podemos dispensar a leitura e a análise de Saramago. Sejamos coerentes! Muitos daqueles que dispensam a leitura, poderiam ganhar muito, lendo! E estudando…

