Natural da freguesia de Modelos, em Paços de Ferreira, António Barros despede-se da vida ativa com o orgulho de quem deixou a sua marca em todas as freguesias do concelho, mas com a nostalgia de uma rotina dedicada à arte da pedra.
O cinzel e o martelo deram tréguas, mas a memória de António Barros continua bem viva em cada canto de Paços de Ferreira. Aos 66 anos, o pedreiro que serviu a Câmara Municipal durante quase quatro décadas (38 anos) prepara-se agora para enfrentar o desafio da reforma, um capítulo que, confessa, tem sido recebido com um misto de saudade e inquietação.
A história de António com a pedra começou cedo, aos 14 anos, nos alicerces da Igreja de Modelos. Desde então, nunca mais largou a profissão, tendo trabalhado com familiares, até concorrer a um lugar de pedreiro no município. Na autarquia, o seu percurso iniciou-se no edifício da antiga Câmara Municipal (atual Museu Municipal) e encerrou-se, recentemente, com a construção de um muro na freguesia de Seroa.
Pelo meio, ficaram quilómetros de muros e obras que o levaram a percorrer todas as freguesias. Mais do que pedra e cal, António construiu uma rede de amizades. “Nunca ninguém me faltou ao respeito. Depois destes 38 anos, fica a saudade de muitas pessoas e do bom ambiente. A formiga rói sempre um bocadinho…”, admite.
O orgulho na perfeição
Para António Barros, a construção civil nunca foi apenas um ganha-pão, mas uma arte executada com rigor. Defensor de que o gosto pelo que se faz é o segredo para a qualidade. “Era perfeito naquilo que fazia. Temos que ter gosto e, se tivermos, as coisas ficam sempre bem feitas”. O trabalho duro era alimentado pela paixão, acreditando que “quanto mais se trabalha, mais gosto se tem”.
O desafio do legado
Apesar da satisfação pelo dever cumprido, existe uma nota de preocupação quanto ao futuro da profissão. António lamenta não ter conseguido transmitir o seu saber a uma nova geração. “O trabalho de pedreiro é muito duro e não há muito quem queira aprender. Muros como nós fazíamos, eles não vão ter homens para ajudar”.
Atualmente, o que mais custa a António Barros é a quebra das rotinas. “Falta-me sair de casa de manhã e regressar à noite depois de um dia de trabalho. Estes primeiros dias têm sido difíceis”.
Enquanto se adapta a esta nova fase e à condição de reformado, vai ocupando o tempo no campo – dando uma ajuda ao seu filho – e em pequenos trabalhos, sempre com a saúde a ditar o ritmo.
Paços de Ferreira despede-se assim de um dos seus mais dedicados artífices, um homem que conhece o concelho pedra a pedra e que deixa para trás um legado de “respeito”, “amizades” e “perfeição”.


