Num ano marcado pela volatilidade geopolítica e pela pressão nos custos operacionais, os empresários de Penafiel revelam à revista #Input da AEP as suas estratégias para enfrentar 2026. Da exigência de baixar o IVA na saúde e restauração à urgência de infraestruturas, o tecido empresarial da região reclama um olhar mais atento do Governo para as PME.
Portugal continua a crescer acima da média europeia, mas o otimismo das estatísticas nacionais encontra, no terreno, um cenário de “equilibrismo” constante. Em Penafiel, o pulso da economia local bate ao ritmo da adaptação. Entre a escassez de mão de obra especializada e a inflação dos custos de produção, os empresários da região desenham um roteiro para 2026 onde a personalização do serviço e a digitalização surgem como as principais boias de salvamento.
Saúde e Restauração: O clamor pela redução do IVA
Para setores de proximidade, a carga fiscal é apontada como o principal travão ao consumo e à sustentabilidade. Luísa Sousa e Silva, proprietária da Sousa & Merêncio, empresa com 25 anos no setor dos produtos hospitalares, é taxativa: o IVA nos artigos ortopédicos deveria fixar-se nos 6%.
“Era importante para nós, mas também para os utentes, já que tornaria os produtos mais baratos”, defende a empresária, que enfrenta aumentos de custos de fornecedores acima dos dois dígitos num contexto regional de baixos rendimentos.
O apelo ecoa no setor da restauração. Arminda Silvares, o rosto do emblemático Solar do Souto, em Abragão, mantém a confiança na fidelidade dos clientes, mas não esconde a pressão. “Vamos ter de aumentar [os preços no menu] o mínimo para os clientes não deixarem de vir”, explica, reforçando que a descida do IVA na restauração seria a ajuda decisiva para um setor que luta para encontrar novos colaboradores devido às expectativas salariais incomportáveis para as pequenas estruturas.
Têxtil: Resistir à “ameaça” do Oriente com qualidade
No setor industrial, o desafio é de outra escala. Pedro Teixeira, da DumaTêxtil, descreve um cenário de resistência em Castelões. Com a concorrência agressiva do Médio Oriente, a estratégia passa por fazer “aquilo que o Oriente não quer fazer”: encomendas menores e de maior complexidade.
O empresário aponta duas falhas estruturais que o Governo precisa de corrigir em 2026:
-
Formação Profissional: A necessidade de atrair as novas gerações para a confeção através das escolas.
-
Acesso a Fundos: “Os projetos estão pensados para as grandes empresas”, lamenta, pedindo mecanismos de modernização adaptados às PME.
A dicotomia do consumo: Do digital ao “luxo” das flores
Se para a Loja Record, no centro da cidade, o caminho é irreversível e passa pelo digital — “Vendemos experiências, não apenas sapatilhas”, afirma André Magalhães —, para outros, a realidade física impõe barreiras intransponíveis.
Carla Martins, da Flor do Douro, em Eja, ilustra o impacto da quebra do poder de compra no setor primário, onde as plantas passaram a ser vistas como um “bem de luxo”. Além da economia, a empresária aponta o dedo à falta de infraestruturas: a conclusão do IC35 continua a ser a grande promessa esperada para retirar o negócio do isolamento geográfico.
O que esperam os empresários para o resto de 2026?
As vozes de Penafiel convergem num ponto: a resiliência não pode ser o único motor do crescimento. É necessária uma estratégia pública que contemple:
-
Reorganização do comércio local: Evitar a sobreposição de negócios e regular as vendas online.
-
Apoio à modernização: Facilitar candidaturas a fundos europeus para empresas de pequena dimensão.
-
Acessibilidade e Fiscalidade: Melhorar vias de comunicação e aliviar a pressão fiscal em bens essenciais e serviços.
Apesar das incertezas, o sentimento predominante é de continuidade. Como resume Arminda Silvares, do Solar do Souto: “De nada fiz alguma coisa e, de pouca coisa, fiz tudo o que tenho”. Em 2026, Penafiel continua a ser o exemplo de que, no Norte, a crise é apenas um pretexto para a reinvenção.

