Estudo da CGTP revela que a disparidade de rendimentos entre homens e mulheres se acentua nas qualificações mais elevadas. Uma em cada dez trabalhadoras vive em situação de pobreza.
As mulheres em Portugal continuam a enfrentar um cenário de acentuada precariedade e desigualdade salarial. Segundo um estudo da Comissão para a Igualdade entre Mulheres e Homens da CGTP, com base em dados da Segurança Social de novembro de 2025, quase 60% das trabalhadoras (58,7%) auferiam uma remuneração base bruta de até 1.000 euros mensais.
O universo de mulheres nesta situação ascende a mais de 1,2 milhões, num total de uma força de trabalho feminina composta por cerca de 2,04 milhões de pessoas. Em comparação, a percentagem de homens no mesmo escalão salarial é inferior, fixando-se nos 53,5%.
O peso do salário mínimo e a “pobreza laboral”
Os dados revelam que a base da pirâmide salarial está fortemente feminizada:
-
Salário Mínimo: 411 mil mulheres (20,5% do total feminino) recebiam apenas o salário mínimo nacional, fixado em 870 euros à data do estudo.
-
Rendimentos até 1.500€: 80% das trabalhadoras (quatro em cada cinco) não ultrapassam este patamar de salário base bruto.
-
Pobreza: Uma em cada dez trabalhadoras é considerada pobre. A CGTP alerta que este número duplicaria caso não existissem transferências sociais.
Diferencial agrava-se em cargos de topo
Curiosamente, a disparidade salarial não é mais baixa onde as competências são maiores. Pelo contrário, o estudo indica que o fosso entre géneros se agrava nas qualificações mais elevadas.
| Categoria Profissional | Diferença Salarial (Base) | Valor Absoluto (menos para mulheres) |
| Quadros Superiores | 25,4% | 729 € |
| Quadros Médios | 15,6% | 306 € |
| Profissionais Qualificados | 14,3% | 218 € |
| Não Qualificados | 3,8% | — |
Enquanto nos trabalhadores não qualificados a diferença é de apenas 3,8% (devido à barreira protetora do salário mínimo), nos quadros superiores a diferença dispara para os 25,4%, o que representa menos 729 euros por mês na conta das mulheres.
Precariedade e dupla jornada
A análise da central sindical foca ainda a precariedade como fator de exclusão. Mulheres com contratos a termo ganham, em média, menos 20% do que as colegas com vínculos permanentes. No caso do “falso trabalho independente”, a quebra de rendimento atinge os 33%.
Esta fragilidade financeira obriga muitas mulheres a procurar alternativas de subsistência: em 2025, cerca de 140 mil trabalhadoras acumulavam uma segunda atividade profissional para fazer face ao aumento do custo de vida, nomeadamente na habitação e bens essenciais.
A divulgação deste estudo assinala a Semana da Igualdade (02 a 08 de março), que este ano decorre sob o lema “A Igualdade que Abril abriu. Reforçar Direitos. Cumprir a Constituição”.


